Welcome Guest [Log In] [Register]
Welcome to Ildivofans. We hope you enjoy your visit.


You're currently viewing our forum as a guest. This means you are limited to certain areas of the board and there are some features you can't use. If you join our community, you'll be able to access member-only sections, and use many member-only features such as customizing your profile, sending personal messages, and voting in polls. Registration is simple, fast, and completely free.


Join our community!


If you're already a member please log in to your account to access all of our features:

Username:   Password:
Add Reply
  • Pages:
  • 1
  • 3
[FF] Unbreakable; *A sequência de Unmistakable* Terminada!
Topic Started: Jun 12 2006, 10:58 AM (285 Views)
Tatiana
Member Avatar
Administrator
[ *  *  * ]
CENA 31

Valerie remexeu suas coisas e encontrou o telefone de Tom Banks. Seu apartamento estava uma desordem. Assim que descobriu que Gail voltara para Urs, arremessou alguns objetos contra as paredes, derrubou alguns quadros, transformou o ambiente no caos. Apertou o papel nas mãos e procurou o telefone. Chutou algumas almofadas, sem êxito em sua busca. Antes que se irritasse mais, achou melhor pegar o celular. Ela precisava tomar uma atitude, urgente. Discou os números várias vezes, pois deixava seus dedos escorregarem dos botões. Finalmente, atenderam.
“Tom Banks, por favor. É Valerie Letout.”
“Ele a aguarda?”
“Não. Simplesmente fale quem é.”
Alguns segundos depois, Tom Banks atendeu o telefone.
“Valerie... quanto tempo.”
“Sim, muito tempo. Mas não liguei para conversarmos sobre a infância. Preciso de um favor seu. Bem recompensado, claro.”
“Favor? Sobre o que se refere?”
“Sabe o assassinato do magnata texano na Romênia? Sei onde está a filha dele. Quero que você a incrimine.”
“O que você tem a ver com isso?”
“Não faça perguntas. Pago bem para que você fique quieto e aja.”
“Bem quanto?”
“Muito. Aceita ou não?”
“Aceito... a mulher está mesmo sendo procurada... não deve ser difícil envolvê-la no caso. Algumas sugestões... eu consigo meus contatos na polícia romena.”
“Ótimo. Vou te passar um fax com a localização dela. Depois me passe uma conta para onde vou realizar o depósito.”
Tom Banks agradeceu e desligou. Valerie atirou o celular longe, fazendo o aparelho depedaçar-se na parede. Aquela Gail a tirava mesmo do sério... era obrigada a tomar atitudes que não queria tomar, naquele momento. Mas não aceitaria perder Urs como todos pensavam que ela havia aceitado. Fez-se de complacente, superior, mas por dentro remoía ódio e vingança.
Offline Profile Quote Post Goto Top
 
Tatiana
Member Avatar
Administrator
[ *  *  * ]
CENA 32

David dormia profundamente, mas as batidas na porta o fizeram despertar, a contragosto. Queria dormir o dia todo, o máximo de tempo possível. Enquanto dormia, não precisava pensar que Gail estava com Urs. Fazia dois dias que ela voltara para casa, e ele ainda podia senti-la ao seu lado. Nunca imaginou que pudesse ter Gail, e a idéia de Valerie o fez sonhar com mentiras. Era mesmo um idiota, nunca mudaria.

Abriu a porta trajando moleton, com o cabelo totalmente despenteado.
“Sr. David Miller?”
David balançou a cabeça positivamente.
“Temos um mandado de busca.”
David esfregou os olhos e percebeu que dois policiais fardados acompanhavam um homem de terno. E eles diziam que queriam vistoriar seu quarto de hotel.
“Pretendem buscar o que?” David afastou-se para que os policiais entrassem.
“Gail Heather Donovan”.

Os olhos de David quase saltaram para fora. Ainda estava sob efeito de remédios, mas sabia que aquele era o nome completo de Gail... da Gail filha de Albert Donovan. Ele a conheceu como Gail Heather Williams, e logo passou para Bühler. Nada a ligava àquele nome novamente, apenas seu pai. E ele não poderia saber que ela estava com ele... só se Valerie contasse. E ele teve certeza que Valerie contara tudo a Albert.
“Ela não está.” David deu de ombros. “Fale com o pai dela que ela não está comigo, está na Romênia. Ele sabe disso.”
“O Sr. Donovan está morto. Foi assassinado há três dias. E sua filha é a principal suspeita do crime.”
O divo desabou em um sofá, incrédulo. Aquele policial deveria estar enlouquecido... Donovan assassinado? Gail suspeita? Impossível aquilo, pois ela estava com ele. Estavam juntos... passaram a noite juntos. Ela não estava na Romênia.
“Isso é brincadeira, certo?” David imaginou que Valerie estivesse lhe pregando uma peça. “Gail não matou ninguém... ela jamais faria isso. E... ela não estava na Romênia há três dias!”
“Pelo que consta, estava sim.”
“Posso provar que ela não estava.” David desafiou o detetive. O homem afinou seu bigode e o encarou.
“Agradeceríamos se pudesse colaborar com o caso. Mas agora é melhor dizer onde está Gail Donovan.”
“Com o marido dela, na casa dela.” Havia amargura na voz de David. “Não sai mais nada de minha boca.”
O detetive chamou os dois policiais fardados e todos saíram do quarto. Ele passou a mão pelos cabelos várias vezes... aquilo não podia estar acontecendo. Ele levara Gail para a casa para salvar sua alma, era o que pensava. Talvez pudesse ter salvado a alma de Gail também, ele ainda não sabia. Mas... Donovan assassinado só podia ser mentira. Ele se recusava a acreditar, por menos que gostasse do americano. E havia várias pessoas suspeitas para o crime. Pegou o telefone, ele precisava avisar Gail.

............................

“Sra. Gail... telefone. É o Sr. Miller.”
Gail baixou o jornal que lia e fitou Harold. Ela não se lembrava dele em nada. Era como se nunca mesmo o tivesse visto, e também não sentia nada por ele. Nem amizade, nem gratidão, nada que achava que deveria sentir. Levantou-se, confirmou que Dylan dormia, e foi até o telefone.
“David? Fale!”
“Gail, você precisa sair daí.”
“Por quê?”
“Porque mataram seu pai e estão atrás de você!” David era sempre muito delicado.
“Quem matou meu pai?” Gail falou alto. Urs apareceu, aproximando-se. “Quem está atrás de mim?”
“Não sei quem matou seu pai! Sei que a polícia acabou de sair daqui atrás de você, eles acham que você é suspeita.”
Gail emitiu uma interjeição de assombro e largou o telefone. Urs assumiu a conversa, enquanto ela girava de um lado para outro.
“Quem está falando?”
“É David... Urs, você tem que tirar Gail de casa. A polícia está indo praí, pensam que ela matou o pai.”
“Que história é essa? O tal homem morreu... Gail é suspeita... como pode? Ela está com amnésia, estava perdida na Romênia, ninguém sabia dela! E o pai dela não mora no Texas?”
“Mora! Mas... Ah, Urs! Sem perguntas, só tire Gail de casa!”
Urs desligou o telefone bastante contrariado. Abraçou a mulher que parecia desnorteada. Ele não entendeu nada do que David disse; tudo parecia fazer nenhum sentido. Donovan morto, Gail suspeita... ela tinha amnésia, não poderia lembrar-se do pai. E, como pensaram que pudesse ter sido ela? E... por que foram procurá-la no quarto de hotel de David?
“O que vai acontecer?” Gail olhou para Urs, esperando que ele lhe dissesse palavras de conforto.
“Nada. Vou tirar você daqui, vou esconder você.”
“Não!” Ela protestou. “Não matei ninguém, se fugir vou parecer culpada. Fico e enfrento... é melhor assim. Não podem ter provas contra mim”
Naquele instante, a campainha tocou. Urs abraçou Gail. Ele não deixaria que a levassem para lugar algum. Eles não podiam entrar em sua casa e levá-la. Harold foi abrir a porta enquanto Urs pegou o celular e ligou para Dan Murphy, o advogado que tratava dos assuntos da banda. Ele confiava em Dan, e sabia que ele não o deixaria na mão.
O detetive falou com Harold de sua intenção em falar com Gail. Eles não tinham um mandado para buscas na casa de Urs, e não podiam entrar. O mordomo, educadamente, avisou aos policiais que Gail estava descansando, mas a própria mulher apareceu no hall de entrada.
“O que desejam comigo?” Gail foi enfática. Vestia moletom e veludo, tentava enfrentar o frio.
“Srta. Donovan, queremos interrogá-la sobre a morte de seu pai.”
“Sra. Bühler.” Gail corrigiu o detetive. “Soube que meu pai morreu agora, quando um amigo ligou dizendo que vocês estavam a caminho. O que aconteceu?”
“Então diz que não sabe? Ele foi assassinado na Romênia, quando passava férias com a senhora.”
“Ele não estava de férias. E nem estava comigo. Eu estou em Lucerna há três dias, não fui eu quem o matou.”
“Mesmo assim, precisamos investigar. Terá que vir conosco.”
“Vocês têm um mandado?” Urs apareceu. Depois de ter conversado com Dan, sentia-se mais seguro sobre o que fazer.
“Não... pretendíamos levá-la amigavelmente.”
“E eu vou. Mas não hoje.” Gail decidiu.
“Mas senhora...”
“Sem mas. Eu vou até a delegacia amanhã e me apresento. Agora não, estou com meus filhos. Se quiserem, temos um acordo. Senão, voltem com um mandado e provem que resisti a ir com vocês.” Gail cortou o detetive e entrou, deixando Urs para finalizar a conversa.
Offline Profile Quote Post Goto Top
 
Tatiana
Member Avatar
Administrator
[ *  *  * ]
CENA 33

“A mentira é inerente, não podemos nos livrar dela. É como um veneno que vai nos matar, mas se veste como o remédio que vai nos salvar.”
Gail repetia essas palavras inconscientemente, enquanto observava a chuva fina que caía do lado de fora. Seus olhos estavam vidrados na janela transparente, e ela sequer sabia que horas eram. Também não lembrava aonde tinha ouvido aquilo, mas parecia fazer tanto sentido... Sentiu que alguém se aproximava, mas não conseguiu parar de contar as gotas que escorriam pelo vidro embaçado.
“O jantar está servido, Gail.” A voz de Urs ecoou pelo quarto escuro. Ele achou melhor não acender as luzes.
“Não tenho fome, obrigada.”
“Você sabe que não precisa ir a lugar nenhum, amanhã... vou contratar advogados e eles...”
“Urs...” Gail levantou-se e se aproximou do marido, que começava a se embolar nas palavras. Era tarde demais para olhá-lo nos olhos. “Não adianta, eu preciso enfrentar isso. Aliás, acho que tenho uma sina... talvez um karma. Enfrentar tudo e todos para viver em paz, e não conseguir. Deixei o Texas, vim para a Europa... e tudo por sua causa! Parece fantástico de se acreditar, mas foi por sua causa. Passei por cima de qualquer moral e de todos os conceitos que eu tinha, e o universo continua conspirando contra mim.”
Urs a olhou assustado. Gail tinha amnésia e falava daquela forma, o olhar parado.
“Você está bem?”
“Não, esses flashes vêm a toda hora. Talvez eu esteja recuperando minha memória, e talvez eu nem queira recuperar. Não matei meu pai...” Gail interrompeu o que diria. Explicaria a Urs tudo que aconteceu entre ela e David? A história do filho que podia não ser dele, a traição? Não queria, não estava preparada. Recostou sua cabeça no peito de Urs e fechou os olhos. Deixou que algumas lágrimas escorressem pela camisa dele, molhando sua pele suave.


There were nights when the wind was so cold
That my body froze in bed
If I just listened to it
Right outside the window
There were days when the sun was so cruel
That all the tears turned to dust
And I just knew my eyes were
Drying up forever


Ele segurou a face de Gail entre as mãos e a olhou ternamente. Também tinha segredos que não eram secretos, também tinha do que se arrepender. Deixara-se levar pelo sentimento mais vil que um homem poderia ter, a cobiça. Quis Gail e Valerie ao mesmo tempo, e não poderia ficar com nenhuma delas, então. Foi o que sentiu ao pensar que havia perdido Gail para sempre, que jamais teria em seus braços outra mulher. Jamais amaria outra mulher, jamais conseguiria olhar para outra e sentir seu coração preenchido por um sentimento que apertava o peito e causava dor, uma dor imensa.

“Eu te amo, Gail Bühler”.
Gail sorriu, e abraçou Urs, beijando-o nos lábios. Mesmo sem ter certeza do que sentia, ela quis beijá-lo desde que o vira, em seu quarto, aquela noite. Parecia um misto de pesadelo e sonho bom; uma sensação que ela não sabia explicar. Urs a apertou contra si, acariciando suas costas. Os dois se beijavam como se fosse novamente a primeira vez, mas sem a mesma ansiedade. Ambos já sabiam o que sentiam um pelo outro, e aquilo dava segurança. Sem que Gail percebesse, Urs a deitou na cama que não era usada desde o seu desaparecimento. Começou a beijar seu pescoço, seu colo, seus seios... invadiu a blusa que vestia e a retirou, arremessando para o outro lado do quarto. Depois, tirou a sua camisa. Gail colocou as duas mãos no zíper da calça de Urs e o abriu.
“Você...”
“Por favor, não me pergunte se tenho certeza disso.” Gail interrompeu a frase de Urs sem nem saber direito o que ele queria. Beijava sua barriga, segurava-o pela linha do quadril, abaixando a calça bem devagar. “Eu não tenho certeza de nada, mas não me faça pensar nisso agora. Deixe que eu te ame, pode ser a última vez que faça isso...”
“Nunca mais diga isso!” Urs segurou as mãos de Gail e a encarou. Depois, enfiou as suas mãos por debaixo da saia que a mulher vestia, desrespeitando toda a sua privacidade. Eles sempre fizeram amor de forma viril, forte. Não havia suavidade ou gentilezas; era desejo, sempre.
Harold resolveu subir para ver o que atrasava Urs e Gail para o jantar. Ele mandara preparar o melhor creme de milho que Constance poderia fazer; se esfriasse seu trabalho seria em vão. Mas o mordomo parou alguns centímetros de distância da porta do quarto, ao perceber os corpos que se contorciam na penumbra. Franziu as sobrancelhas e sacudiu a cabeça negativamente, com um sorriso maroto nos lábios. Eles sempre foram daquele jeito, nunca se lembravam de fechar a porta! Antes de retornar para a cozinha, Alfred fechou a porta que dava acesso ao corredor da suíte do casal para evitar que Kirsten fosse procurar os pais.


I finished crying in the instant that you left
And I can't remember where or when or how
And I banished every memory you and I had ever made
But when you touch me like this
And you hold me like that
I just have to admit
That it's all coming back to me
When I touch you like this
And I hold you like that
It's so hard to believe but
It's all coming back to me
(It's all coming back, it's all coming back to me now)
There were moments of gold
And there were flashes of light
There were things I'd never do again
But then they'd always seemed right
There were nights of endless pleasure
It was more than any laws allow
Baby Baby
If I kiss you like this
And if you whisper like that
It was lost long ago
But it's all coming back to me
If you want me like this
And if you need me like that
It was dead long ago
But it's all coming back to me
It's so hard to resist
And it's all coming back to me
I can barely recall
But it's all coming back to me now
Thought you were history with the slamming of the door
And I made myself so strong again somehow
And I never wasted any of my time on you since then
But if I touch you like this
And if you kiss me like that
It was so long ago
But it's all coming back to me
If you touch me like this
And if I kiss you like that
It was gone with the wind
But it's all coming back to me
(It's all coming back, it's all coming back to me now)
There were moments of gold
And there were flashes of light
There were things we'd never do again
But then they'd always seemed right
There were nights of endless pleasure
It was more than all your laws allow
Baby, Baby, Baby
When you touch me like this
And when you hold me like that
It was gone with the wind
But it's all coming back to me
When you see me like this
And when I see you like that
Then we see what we want to see
All coming back to me
The flesh and the fantasies
All coming back to me
I can barely recall
But it's all coming back to me now
If you forgive me all this
If I forgive you all that
We forgive and forget
And it's all coming back to me now
(It's all coming back to me now)
And when I touch you like that
(It's all coming back to me now)
If you do it like this
(It's all coming back to me now)
And if we. . .
Offline Profile Quote Post Goto Top
 
Tatiana
Member Avatar
Administrator
[ *  *  * ]
CENA 34

A porta de Urs quase foi ao chão com as batidas de David. Era muito cedo, e o dia havia amanhecido com uma neblina tenebrosa pairando sobre a cidade de Lucerna. Não havia sol e a claridade do dia não fazia com que parecesse realmente dia. David havia pulado cedo da cama, e sequer havia dormido direito. Desde que aqueles policiais apareceram em sua casa, estava nervoso e ansioso. Engoliu quase um vidro de analgésicos mas não conseguiu se sentir melhor. Sua cabeça doía pela abstinência de outras drogas, mas ele iria resistir. Estava cansado... vestiu qualquer coisa e surgiu na casa de Urs como um torpedo. Ele precisava conferir se o amigo havia seguido seus conselhos e tirado Gail do caminho dos policiais.
Frau Bühler abriu a porta para o rapaz, que praticamente congelava do lado de fora. David nem tinha percebido que vestira apenas uma camiseta de malha surrada.
“David... entre!” Ela colocou o divo para dentro. “O que houve, meu filho?”
“Onde está Urs?”
“Com Gail, no quarto. Eles ainda não desceram... por que, aconteceu alguma coisa?”
“Não sei.” David sentiu-se meio aliviado, por saber que Gail estava em casa. E não tão aliviado por saber que ela estava com Urs, no quarto. “Policiais estiveram em minha casa querendo prender Gail.”
“Sim, eu soube. Ela vai se apresentar hoje a eles.”
“Ela vai?” David sentou-se no sofá.
“Sim, acha melhor esclarecer isso tudo. Venha, vou pedir que Harold sirva o café para você.”
David coçou a cabeça, visivelmente descontrolado.
“Obrigado, mas preciso ir. Só queria saber se Gail estava bem.”
Ele beijou a face da velha senhora e deixou a casa da mesma forma abrupta que chegou. Frau Bühler não se espantou, era David. Ele sempre agira daquela forma impulsiva, e ela sabia que ele havia deixado as drogas. Aquilo a deixava mais tranqüila.
Em poucos instantes, Urs e Gail desceram as escadas a fim de comer alguma coisa. Tinham um sorriso no rosto e caminhavam lado a lado, de mãos dadas. Gail não se recordava de fazer amor com homem nenhum, nem mesmo com Urs. Mas sabia que nada poderia ser melhor do que aquilo. Momentaneamente, esqueceu-se de David e da aventura mentirosa que tivera com ele. Como sempre acontecia, apesar de ela não se lembrar, estar com Urs a fazia esquecer de tudo mais que havia ao redor.
“David esteve aqui, queria saber como você estava.” Frau Bühler dirigiu-se a Gail, enquanto os acompanhava no café.
“Por que ele não ficou para o café?” Gail quis saber.
“Disse que tinha outros compromissos.”
“Bem, vou comer alguma coisa e descobrir o que esse detetive quer comigo.”
“Tem mesmo certeza que quer fazer isso, Gail?” Urs ainda tinha dúvidas.
“Sim, quero. Devo, aliás. Eu não matei pai nenhum, quanto mais o meu.”
“Acho engraçado isso... muita coincidência seu pai estar da Romênia na mesma época que você, desaparecida, com amnésia. Não acha?”
“Acho sim, claro.” Gail achou melhor não adentrar no assunto de David. Ela havia prometido a ele não contar. Claro que precisaria contar algo na delegacia, mas tentaria manter a promessa. Por mais que ela tivesse certeza que David estava envolvido em alguma coisa, ele a havia ajudado. E certamente não tinha matado Donovan, porque estavam juntos quando aquilo aconteceu. Gail estava confusa, mas achava que deveria proteger David por alguma razão.

......................................


“Capitão Haschler... tem uma pessoa aqui fora que o senhor vai querer ver.” Um rapaz franzino, com óculos pendurados no nariz, entrou na sala do capitão de polícia de Lucerna para dar-lhe a notícia que Gail Bühler estava querendo se apresentar. Ela chegara com dois advogados e o marido, e o rapaz não sabia o que fazer.
“Quem, Frank?”
“Gail Bühler, senhor.”
O capitão ajeitou-se na cadeira, alisou o bigode e pediu que a mulher fosse conduzida até ele.
“Quero conversar com ela sozinho!” Deu as instruções a Frank.
Em poucos minutos, a figura pequena de Gail adentrou a sala. Um dos advogados a acompanhava, mas ela o afastava e insistia que queria ter aquela conversa sozinha. Depois de alguns segundos, ela o convenceu a esperá-la com Urs, pois logo sairia. O capitão Haschler assistiu à cena, curioso, pois era a primeira vez em que via uma pessoa repelir um advogado em um interrogatório.
Gail sorriu para o capitão e sentou-se, sem que ele pedisse. Era americana, e nem sempre se ligava nas formalidades dos irlandeses.
“Presumo que já saiba do que se trata sua visita, Sra. Donovan.”
“Bühler, capitão. Meu nome é Gail Bühler desde que me casei com Urs Toni Bühler.”
“Ok, Sra. Bühler... sabe que é a principal suspeita pela morte do seu pai?”
“Sei, mas não entendo.”
O capitão levantou-se e começou a rodear. Gail teve uns flashes esquisitos passando em frente a seus olhos. Sacudiu a cabeça umas duas vezes para tentar apagar as imagens, mas elas estavam ali, passando como um filme desordenado em sua cabeça. Ela viu David, e se viu, e eles sorriam. Depois ela chorava. Ela jogava um quadro com a fotografia de Urs no chão, e o vidro estilhaçado lhe cortava o dedo. Olhou para a mão e lá estava a cicatriz.
“Onde estava há dois dias atrás?”
“Em Lucerna.”
“Fazendo o que?”
“Eu moro aqui, capitão.”
“Por que deixou as férias com seu pai?”
“Capitão Haschler... não sei quem te informou a respeito dos fatos, mas essa pessoa está meio desatualizada. Eu fugi do meu pai há anos. Saí de casa, mudei até de nome quando me estabeleci em Londres. Comecei a estudar direito para obter uma forma legal de me desvencilhar dele para sempre. Por que estaria passando férias com ele se o repudiava tanto?”
“Pensei que tinha amnésia...”
“Às vezes me lembro das coisas, pela metade.”
“Confessa, então, que não gostava do seu pai?”
“Nunca neguei isso.”
“Mas você esteve na Romênia recentemente. Confirma que esteve?”
“Sim, eu estava na Romênia. Estava hospitalizada, e quando saí do coma fui encontrada por David Miller, amigo do meu marido. Ele me trouxe de volta.”
“O que fazia lá?”
“Não sei, capitão. Tenho amnésia, estive em coma por muito tempo. Não sei o que fazia lá nem como fui parar lá. Também não sei como meu pai me descobriu lá, só que ele apareceu no hospital querendo que eu me casasse com o filho de um amigo... uma longa história. Disse que nunca faria aquilo; que já era casada. O próprio Kyle apareceu por lá com a noiva. Depois disso, voltei para Lucerna.”
“Não sei por que, esta história não me convence.”
O capitão aproximou-se de Gail de forma a deixá-la desconfortável. A mulher estava tranqüila, mas o bombardeio de memórias desorganizadas a estava tornando ansiosa. Piscava muito e suava, mesmo estando frio. Tinha vezes que ela chegava a não ver a paisagem normal da sala em que estava.
“Olha, capitão Haschler... eu estive doente por muito tempo. Não tenho pretensão nenhuma de te convencer de nada. Já falei o que tinha para falar, então vou me retirar.”
Gail levantou-se e intentou sair. Porém o capitão colocou-se entre ela e a porta, impedindo que a mulher deixasse a sala.
“Não tão cedo, Sra. Bühler. Acho que deve ficar detida até o final das investigações.”
“Detida com base em que, capitão?”
“Você não tem um álibi.”
Offline Profile Quote Post Goto Top
 
Tatiana
Member Avatar
Administrator
[ *  *  * ]
CENA 35


Gail sentou-se no gelado banco da cela em que foi encarcerada, ali mesmo no departamento de polícia de Sligo. Quando era conduzida por dois policiais fardados, ela pode ouvir Urs esgoelar-se na recepção, mas não podia fazer nada. Ela tinha que aceitar a situação, afinal estava aceitando tudo ultimamente. E precisava acreditar que Urs e David fariam algo para ajudá-la. David sabia de tudo, ela nunca cobrou dele uma explicação, mas tinha certeza que ele estaria ao seu lado se alguma coisa ruim acontecesse. E ser presa pela morte do pai, sendo totalmente inocente, era uma coisa ruim na percepção de Gail.
Um policial apareceu alguns segundos depois da prisão e a entregou água e algumas frutas. Pelo menos era seria bem tratada... era casada com uma celebridade, eles não permitiriam que nada acontecesse com sua saúde. Talvez providenciassem algum conforto.


Come and hold my hand
I wanna contact the living
Not sure I understand
This role I've been given



“Claro que não vou aceitar isso!” Urs esbravejava no telefone. Gritava tão alto que a mãe levou as crianças para sua casa, a fim de que não presenciassem o escândalo que o pai fazia. Carlos e Sébastien rodavam de um lado para o outro, pensando no que fazer para ajudar o amigo. Urs desligou o telefone irritado, e atirou o aparelho longe.
“O que o advogado disse?” Carlos perguntou sem se aproximar.
“Que ela foi incriminada. Que encontraram pistas que a ligam ao assassinato. Mas ela nunca matou o pai! Ela estava com David! Com David!”
“Ele pode depor para servir de álibi.” Sébastien pensou alto.
“Talvez. Espero que ele esteja bem... sem drogas.”
“Ele vive cheio de remédios! Como vão acreditar em um maldito drogado?” Urs continuava a gritar. “O que importa é que tem alguma coisa errada nisso! Tem que ter! Gail surgiu do nada, com amnésia, trazia por David. O que ele fazia na Romênia? O que todo mundo fazia na Romênia, por Deus?”
“Certamente ele tem uma explicação para isso, Urs.” Carlos tentou contemporizar. Pegou o celular e discou os números de David, mas ninguém atendeu.
“Ele deve ter saído.” Sébastien pensou, novamente. O rapaz andava aéreo, mas pensativo.
“Ele está jogado em algum canto da casa, drogado como sempre. Vou até lá.”
Urs abriu a porta e entrou no carro que estava parado em frente à casa, tudo em uma fração de segundos. Carlos e Sébastien se entreolharam e acharam conveniente acompanhá-lo. O homem estava visivelmente transtornado, e nenhum dos dois podia achar que aquela reação era estranha.
Chegaram ao quarto de David alguns minutos depois. Urs socou a porta, mas ninguém apareceu para abrir.
“Ele deve ter saído.” Sébastien reforçou seu pensamento.
“Não, ele está aí.”
Urs forçou a porta, mais precisamente sobre a fechadura. Como nada aconteceu, ele voltou à recepção e exigiu que abrissem a porta.


I sit and talk to God
And he just laughs at my plans
My head speaks a language
I don't understand



“O que pretende?” Carlos não entendeu.
Entraram no quarto de David e logo perceberam a desordem. Louças quebradas e coisas esparramadas demonstravam que ele havia passado por um momento de fúria. Urs encontrou David deitado no corredor, abraçado com um vidro de fenolproptaleína.
“Agora ele toma derivados de morfina.” Sébastien sorriu, fazendo uma referência a si mesmo. David adorava implicar com ele, porque se utilizava daqueles medicamentos.
“David! Acorde!” Urs sacudiu o amigo, que parecia desmaiado. Carlos foi pegar um copo de água e Sébastien procurou alguma coisa de cheiro forte para acordar David.
“Leve-o para a cama.” Foi a ordem de Sébastien, que logo chegou com éter.
“Isso vai fazê-lo dormir mais!” Carlos protestou.
“Confiem em mim, eu já tive várias dessas crises.”
Sébastien passou o vidro de éter aberto na frente do nariz de David umas duas vezes, até que ele tossiu e abriu os olhos, assustado. Os três esperaram que ele se localizasse, mas David parecia estar embriagado.
“O que vocês fazem aqui?” Ele coordenou uma frase. Urs aproximou-se dele e o agarrou pelo colarinho.
“Gail foi presa. Comece a me contar o que sabe.”
David arregalou os olhos.
“Como assim presa?”


I just want to feel real love
Feel the home that I live in
'Cause I got too much life
Running through my veins
Going to waste



“PRESA! Preciso ser mais claro? Estão acusando Gail de ter matado aquele que se dizia seu pai. Sei que você me disse que ela estava com você há três dias atrás, que foi quando a encontrou no hospital em Budapeste e a trouxe para cá.”
“Sim, ela estava comigo.”
“Então vá soltá-la. Seja seu álibi.”
“Sim, eu vou... claro.”
David tentou levantar-se, mas cambaleou e caiu no chão. Carlos foi tentar ajudá-lo. Urs passava as mãos pelo cabelo, que vinha aos montes por entre os dedos.
“Assim não dá, David! Tem que parecer menos drogado, pelo menos. Vamos ter que esperar você melhorar. Eu fico aqui, vocês estão dispensados.”
“Age como se fôssemos seu mordomo, Urs.” Sébastien achou graça do ‘dispensados’. “Claro que vamos ficar, ou você pode resolver matar David.”
Carlos sentou-se em um sofá, demonstrando intenção de não deixar a casa. Urs desistiu de discutir com os dois, ele tinha mais coisas com o que se preocupar. Ele precisava tirar a limpo a história que envolvia sua mulher.
“Ok, podem ficar. Mas vamos aproveitar que David está grogue e se recuperando e vamos fazer com que ele confesse.”
“Confessar o que?” David não entendeu.
“Não sei, diga você. O que está por trás desta história toda de Gail, David?”
Urs estava de pé, no meio do quarto de David. Tinha o semblante cansado, suado, estressado depois de tanto se desgastar tentando tirar Gail de trás das grades. David, jogado na cama, observava os três rapazes em sua frente e não sabia o que dizer. Tudo que ele falasse deporia contra ele. Mas se não falasse, Urs certamente o obrigaria a falar.
“Não existe nada por trás de história nenhuma.”


I don't want to die
But I ain't keep on living either
Before I fall in love
I'm preparing to leave her
I scare myself to death
That's why I keep on running
Before I've arrived
I can see myself coming


Urs aproximou-se de David e se ajoelhou, para poder fitá-los nos olhos. Ele parecia assustado, arredio como um cão acuado. Agarrou-o pelo colarinho da camisa amarrotada e o puxou para mais perto ainda de si, com um sorriso irônico nos lábios.
“David, eu sei que tem alguma coisa errada. Gail não estava em nenhum hospital quando eu a encontrei... aquela noite. Ela estava em uma casa, e disse que era a casa dela. E eu sei que você não estaria passeando na Romênia para, coincidentemente, encontrá-la. Não me importava nada disso com Gail ao meu lado, mas agora que ela está sendo acusada desse absurdo, eu quero a verdade. E rápido.”
David coçou a cabeça. Pensou por alguns instantes e teve certeza que nada poderia salvá-lo. Pensou em Gail, só ela importava.
“Eu não a encontrei em nenhum hospital. Ela estava comigo... na verdade, eu disse que era seu namorado para que ela acreditasse. Estive com ela desde que foi encontrada em coma, até ela acordar.”
Urs soltou o amigo e rodou algumas vezes pelo quarto, com as sobrancelhas franzidas. As palavras de David surpreenderam até mesmo Carlos e Sébastien, que não entenderam nada.
“E?” Urs quis detalhes.
“Não tem ‘e’. Quando ela acordou, tentei convencê-la de uma história, mas ela não acreditou. Ela via você, falou em você, e aquilo seria um problema. Então resolvi trazê-la para casa.”
“E por que você fez isso, David?” A curiosidade foi de Sébastien. Urs estava boquiaberto, tentando montar um quebra-cabeça.
“Porque eu amo Gail.” Ele confessou. “Eu a amo há muito tempo, e queria que ficasse comigo. Mas nem com amnésia eu consegui.”
David não mentira. Ele fez o que fez por amor, sim, a Gail. Por mais esquisito e egoísta que fosse aquele amor, era ele a motivação das atitudes de David. Foi porque queria Gail para si que ele se deixou envolver por Valerie naquela trama sórdida.
“Eu vou matar você.” Urs avançou sobre o amigo com toda ferocidade, sendo imediatamente impedido por Carlosy, que o agarrou pela cintura. Sébastien colocou-se à frente de Urs, a fim de ajudar Carlos a segurar o amigo descontrolado. David estava meio inerte sobre a cama, sem muito conseguir se defender de tantos remédios que tomara.
“Calma, Urs...” Carloy tentou contemporizar. “David é o único que pode tirar Gail da cadeira, lembre-se disso. Se você bater nele, como ele vai aparecer na delegacia?”
“Não me importa, desde que eu possa arrancar um pedaço dele!” Urs voltou-se para David e ficou ainda mais difícil segurá-lo. “Seu monstro, ainda tem coragem de dizer isso tudo na minha frente? Você tirou minha mulher de mim para ficar com ela? Eu vou acabar com você, se não for hoje vai ser algum dia! Como teve coragem de machucá-la, seu animal!!! Me solta, Carlos, ou vou ter que bater em você também!”
“Eu não machuquei Gail!” David delirou. “Eu jamais faria mal a ela. Foi Valerie quem a drogou e quem a feriu, eu não. Eu só queria convencê-la que era seu namorado, mas Valerie estragou tudo, levando aquele tal de Donovan para lá.”
“Como é que é?” Carlos perguntou.
“O que Valerie tem a ver com isso?” Urs desconcentrou-se do desejo de matar David por alguns segundos.
“Foi ela quem teve a idéia. Ela queria acabar com Gail... ela queria ficar com você.” Ele falava com Urs. “Então, colocou um detetive na cola de Gail e descobriu sobre o pai dela, no Texas. Depois arrumou uma droga que causaria amnésia nela, a drogou, a jogou no mar e rezou para que ela morresse. Como não morreu, ela chamou o pai para levar Gail embora. E ele apareceu com noivo e tudo.”
“Quer que eu acredite que foi Valerie quem fez isso a Gail?”
“Como você acha que o pai dela foi parar na Romênia?”
Urs soltou-se dos amigos. Sua cabeça começava a doer. Alguma coisa a fazia doer. Imaginou Gail sofrendo enquanto Valerie sorria; enquanto Valerie desfrutava da vida que pertencia a ela.


I just want to feel real love
Feel the home that I live in
'Cause I got too much life
Running through my veins
Going to waste
And I need to feel real love
And a life ever after
I cannot give it up
Offline Profile Quote Post Goto Top
 
Tatiana
Member Avatar
Administrator
[ *  *  * ]
CENA 36


“Venha comigo.”
Um homem fardado apareceu para incomodar a concentração de Gail. Ele abriu a porta da cela fazendo bastante barulho, e ela despertou do transe em que se colocara. Sem expressão, a mulher se levantou do banco de pedra e acompanhou o policial, que também não demonstrava nenhuma emoção.
Gail foi levada até a sala do capitão, a mesma sala de onde saiu presa. Ela reconheceu o lugar, e não gostou de voltar para lá. Ao entrar, deparou-se com todo o Il Divo. Sentiu felicidade e medo, ao mesmo tempo. Mas achava que sabia o que faziam ali.
“Esse rapaz diz que passou a noite com ele.” O capitão a olhou com desdém, apontando para David, que parecia amedrontado.
“Eu já tinha dito isso antes.” Ela rebateu.
“Tenho uma ordem para te liberar. Mas pode me aguardar... vou ficar de olho.”
Gail ofertou ao capitão um sorriso malicioso e ofereceu as mãos para que as algemas fossem soltas. Ao ver a mulher livre, Urs foi até ela e a abraçou.
“Eu disse que te tiraria daqui.” Ele sussurrou em seus ouvidos.

...................................

Valerie apertava a campainha da casa de Jodi com toda a força possível. Sem saber que a pressão não fazia a menor diferença para o toque ruidoso da campainha, ela parecia disposta a destruir o aparelho se Jodi não atendesse a porta.
“O que está acontecendo aqui?” A mulher não entendeu a presença de Valerie, completamente descabelada, em sua porta.
“Ela voltou, ele está com ela, ele a tirou da cadeia!” Valerie entrou casa adentro, falando palavras sem coordenação.
“Ela quem? Gail?”
“Claro! O fantasma! E sabe quem a tirou de lá? David, seu homem!”
“Como assim?” Jodi ficou nervosa. Acendeu um cigarro, depois desistiu. Não queria ficar enrugada ou com dentes manchados. A beleza era seu cartaz, somente a beleza.
“Ele foi até a delegacia e serviu de álibi. Agora ela está de volta, eu preciso achar um jeito de resolver isso!”
“Você me disse que isso não aconteceria, Valerie! Disse que ela jamais ficar com ele!”
“Ela não vai ficar com ele, vai ficar com Urs!”
“Mas ele a quer! Continua querendo!”
“Vou falar com Urs.”
“Ficou doida?”
“Ele vai entender, sei que vai.”

..........................

Na casa dos Bühler, Gail tomava um banho quente para relaxar. Urs havia preparado uma banheira com sais aromáticos e deixado o banheiro na penumbra. Ele sabia que a mulher precisava de descanso, tudo estava acontecendo ao mesmo tempo, para ela. E tinha amnésia...
David, Carlos e Sébastien aguardavam o retorno do amigo no andar de baixo. David já estava mais lúcido, e mais arrependido de ter tocado naquele assunto envolvendo Valerie. Mas ele não iria para o inferno sem levar alguém junto, e considerava Valerie o veneno da cobra. Ela estava prestes a encarar seu pior pesadelo. Ele disse que seria cruel se ela não cumprisse com o prometido. E ela não cumpriu.
A campainha tocou, Harold atendeu. Eram as mulheres, Valerie e Jodi, que ficaram bastante nervosas quando perceberam a presença dos homens na sala. Naquele mesmo instante, Urs desceu as escadas, mais calmo. Seu olhar pegou todos os presentes. Ele teve certeza que, daquela vez, nenhum mistério ficaria no ar.
“Olá, Valerie.” Ele tentou se conter. “Faz tempo que eu não te vejo.”
“Urs, eu preciso lhe falar!” Valerie atirou-se sobre ele, beijando no pescoço, nos lábios. Ele, calmamente, segurou seus dois punhos e a afastou de si. Sentiu uma repulsa instintiva, mas precisava se controlar.
“Pode falar. Não existem segredos entre nós.”
“Soube que Gail voltou! Você não pode ficar com ela, não pode! Você me ama, sabe disso.”
“Sei? Devo ter amnésia também. Vai ver que você usou em mim a mesma droga que usou nela.”
Valerie afastou-se, apavorada. Totalmente fora de controle, atordoada com a frieza de Urs, voltou-se para David. Seu olhar era de desespero, enquanto David parecia fora daquele planeta.
“David, você...”
“Eu nada. Foi você. Eu disse para mandar aquele tal Kyle embora, não disse?”
Jodi aproximou-se do noivo, bastante comovida com seu estado. Ele a olhou, desanimado.
“O que ele tomou?”
“Fenolproptaleína.” Sébastien sorriu.
“Você foi tirá-la da cadeia! Por quê?” Jodi precisava saber.
“Porque é verdade, ela estava comigo. Passamos a noite juntos e foi ótimo!” David sentiu-se tomado por um prazer imenso. A morfina ainda fazia efeito, e cada vez o efeito era mais relaxante e gostoso. “Quer saber, Jodi? Você não chega aos pés de Gail. Ela é muito melhor na cama que você! Ela é maravilhosa! E você, Urs... é um burro. Não percebe que, no final das contas, quem causou tudo isso foi você? Tá bom, eu sou promíscuo. Tenho todas as mulheres que quero. Mas quem me dera ter Gail! Se ela me amasse, eu desistia de tudo por ela. Por que você não fez o mesmo? Olhe em volta!!!” David rodava pela sala. Todos o ouviam, ninguém tinha coragem de interromper seus devaneios. “Você tem tudo! Uma casa linda, filhos lindos, uma mulher perfeita! Por que jogar tudo isso no ralo por causa de Valerie??? Meu Deus, você é um idiota, mesmo. Quando Gail descobriu que você continuava tendo um caso com Gil, ela me procurou. E eu, porque sou esperto, fui quem a consolou. Sabe aquele menino que você registrou como Dylan Bühler? Pode muito bem ser meu.”
Urs desabou em uma cadeira. Todos estavam boquiabertos. David havia explodido, enfim. As mágoas, a dor, o sofrimento, a culpa, tudo pesava em seus ombros. Ele estava cansado, queria paz. Valerie desesperou-se e tentou se aproximar de Urs novamente, mas foi a vez de Gail aparecer.
“Tire suas mãos dele.” Gail entrou na sala como uma aparição. Seus olhos irradiavam ira. Olhou fixamente para Valerie e segurou suas mãos. “Nunca mais coloque as mãos perto do meu marido.”


Wherever you go
Whatever you do
I will be right here waiting for you
Whatever it takes
Oh, how my heart breaks
I will be right here waiting for you



“Gail, não...” Carlos tentou contemporizar, mais uma vez.
“Deixe-a, Carlos.” Urs levantou-se. “Gail, isso é verdade?”
“Qual parte?”
“Dylan.”
“Sim, é. Seja lá o que David falou, pode ser verdade.”
“E sobre eu ser um idiota?”
“Também é verdade. Mas eu te amo, isso é inevitável.”
“Nada disso é verdade!!!” Valerie berrou. “Essa mulher é uma farsa! Ela matou uma pessoa!!! Só vocês não vêem! Ela matou o próprio pai!”
“Não, Val. Eu estava com ela, impossível ela estar em dois lugares ao mesmo tempo.”
“Ela mente! Ela é uma mentira! Ela é...”
Jodi agarrou Valerie para tentar acalmá-la e não a deixou terminar a frase. A campainha tocou novamente, e mais uma vez Harold foi receber as visitas. Daquela vez, era o capitão de polícia com notícias vindas da Romênia. Ele chegou no meio do ‘circo’. Todos gritavam ao mesmo tempo. Somente David e Gail permaneciam em silêncio. Olharam-se algumas vezes. Ele, com curiosidade. Ela, como se pudesse revelar todo seu ódio através dos olhos.
“O que está acontecendo aqui?” O capitão perguntou.
“Revelações.” Gail foi irônica. “Valerie está contando como sou mentirosa.”
Valerie ficou desconcertada ao ver a polícia.
“Não vou sozinho para o inferno, Val.” David foi enfático.
“Alguém pode me explicar?”
“Valerie estava contando como forjou o suicídio de Gail e sua amnésia. Depois, como fez para trazer seu pai aqui, tudo isso para tirá-la de Urs.” David sorria. Ele olhava para Gail, e seu olhar o comandava. Ela como se ele estivesse possuído, dizendo exatamente o que ela quisesse que ele dissesse.
“Isso é verdade?”
“Eu só queria livrar Urs dessa mulher! Ela não o merece! Ela não o ama! Ela mente!”
“Eu não matei Albert Donovan. Você sim.”
“Eu não matei ninguém.”
O capitão aproximou-se de Valerie e pediu que o policial que o acompanhava a algemasse.
“Srta. Valerie, está presa pelo seqüestro de Gail Bühler e pelo assassinato de Albert Donovan. Tem o direito de ficar calada, tudo que disse poderá ser usado contra a senhorita em um tribunal. Tem direito a...”
“Parem!!! Ele fez tudo comigo!!! Ele fez o trabalho sujo! Ele é tão culpado quanto eu!”
Valerie gritava, fazendo o maior escândalo. Todos olhavam assustados. Urs abraçou Gail por trás. A mulher tremia, nervosa.
“Vamos levar os dois, lá vocês decidem quem fez o que.” O capitão deu a ordem para que David fosse algemado também. Ninguém tentou impedir nada. A surpresa foi mais forte, paralisando todos os músculos presentes.
Offline Profile Quote Post Goto Top
 
Tatiana
Member Avatar
Administrator
[ *  *  * ]
CENA 37


Gail levantou-se cedo. Olhou para o lado e Urs dormia quieto. Respirou fundo, aliviada. Não tinha mais amnésia, seu passado tenebroso voltara. Junto com as boas memórias. Olhou o marido mais uma vez e tentou se lembrar de quando percebeu que o amava daquela forma. Preferia não amar. Mas a vida não fazia sentido algum sem Urs.
Foi até o quarto de Dylan. O bebê dormia, e os cabelos loiros lhe cobriam a face. Ligou a caixa de música e deixou que as canções de ninar embalassem o filho. Depois, foi até Kirsten, que também dormia. A menina tinha as mesmas feições do pai. Era linda. Fechou os olhos e se lembrou de quando descobriu estar grávida. Urs parecia o homem mais feliz do mundo. E ela, certamente, era a mulher mais feliz. Tentou não se lembrar de quando ele descobriu que precisava de outra mulher.
Voltou ao quarto, escolheu uma roupa bem quente e se vestiu. Não pretendia incomodar Urs, ele deveria estar cansado. Mas havia algo que ela precisava fazer. Desceu as escadas sem fazer barulho, mas chamou a atenção de Harold. Quando o mordomo a interpelou, avisou apenas que iria caminhar. Ela não precisava dar satisfações a ninguém, mas ainda não se sentia confortável para isso. Andou dois quarteirões e, certa de que estava bem longe da casa, pegou um táxi.

............................

David não conseguia dormir direito desde que fora preso. Havia se drogado tanto que nem sentia os poucos dias sem remédios. Os músculos estavam espásmicos. A pele, ressecada e cheia de rugas. Seu cabelo parecia palha. Sabia que estava pagando o preço por ser egoísta, mas não se arrependia nem um pouco. Ele não esperava se redimir, mas esperava ter paz.
A porta que isolava as celas se abriu, e ele ouviu passos. Levantou-se e grudou na grade para ver quem chegava. Quase caiu para trás ao ver que um policial mal encarado conduzia Gail pelos corredores.
“Visitas!” O policial disse. “Você tem meia hora.”
David olhou em volta, procurando Urs.
“Ele não está aqui. Eu precisava vir... sozinha.”


Don't leave me in alll this pain
Don't leave me out in the rain
Come back an bring back my smile
Come and take these tears away
I need your arms to hold me now
The nights are so unkind
Bring back those nights
when I held you beside me
...
Don't leave me here
with these tears
Come and kiss this pain away
I can't forget the day you left
Time is so unkind
And life is so cruel without you
here beside me


“Que bom.” David sorriu.
“Queria que soubesse que, se quiser, eu tiro você daqui. Sou a vítima...”
“Não precisa, Gail. Acho melhor ficar aqui um pouco... necessito de paz de espírito.”
“Está bem. Mas não fico feliz em te ver aqui.”
“Não fazia parte do plano, certo?”
Gail sorriu. Ela sempre soube que ele sabia. Só não entendia por que ele ainda fazia seu jogo.
“Quando soube?”
“Sei que não passou a noite toda comigo. Quando recuperou a memória?”
“Quando vi Urs em meu quarto. Mas não podia contar, precisava fazer com que pensasse que eu ainda era frágil.”
“E... você o matou?”
Gail selou os lábios de David com os dedos. Aproximou a boca de seus ouvidos.
“A vingança é servida fria. Eu acabei me livrando daquele verme e de Valerie. Agora ela nunca mais vai me ameaçar.”
“Mas... como?”
“Nada que uma peruca não resolvesse.”
“Então foi assim... mas... por que isso, Gail?”
“Eu o amo, David. De uma forma completamente descontrolada. E Valerie seria uma ameaça constante. Não podia aceitar. Além disso... eu passei anos fugindo de meu pai. Não podia colocar tudo a perder, não por causa da loucura de Valerie.”
“Não se arrepende?”
“Não.”
Gail sorriu para David, beijou-o nos lábios, virou as costas e caminhou direção à porta.
“Espere! E Dylan?”
“Urs não quer saber.”
“Nem você?”
“Eu já sei, sempre soube.”
“Vai me contar?”
“Você também já sabe.”
Gail saiu, enquanto David sorria involuntariamente na cela, sozinho.
Do lado de fora da delegacia, Gail olhou o horizonte mais uma vez. Os prédios a impediam de ver o sol, mas ela sentia a claridade. Deu as costas e rumou de volta para casa. Havia sangue em suas mãos. E ela nunca se sentira tão feliz. Os fantasmas, todos eles, haviam desaparecido.


If I had words to make a day for you
I'd sing you a morning, golden and new
I would make this day last for all time
Give you a night dipped in moon
Shine
Shine

If I had words to make a day for you
I'd sing you a morning, golden and new
I would make this day last for all time
Give you a night dipped in moon shine

If I had words to make a day for you
I'd sing you a morning, golden and new
I would make this day last for all time
Give you a night dipped in moon shine

If I had words to make a day for you
I'd sing you a morning, golden and new
I would make this day last for all time
Give you a night dipped in moon shine

If I had words to make a day for you
I'd sing you a morning, golden and new
I would make this day last for all time
Give you a night dipped in moon shine

If I had words to make a day for you
I'd sing you a morning, golden and new
I would make this day last for all time
Give you a night dipped in moon shine




Notas sobre a história

1) Unbreakable é a continuação de Unmistakable.
2) A história não é uma songfic, apesar de ter músicas inspiradoras.

3) Os créditos das músicas que aparecem no texto são:
I never knew I was losing you, por Westlife;
Angel, por Westlife;
Crash! Boom! Bang, por Roxette;
Do you know where you’re going to? por Diana Ross;
Here I am, por Air Supply;
Iris, por Goo Goo Dolls;
All I ask of you, por Andrew Lloyd Webber;
How did I fall in love with you?, por Backstreet Boys;
Please forgive me, por Bryan Adams;
One moment in time, por Withney Houston;
If you’re not here, por Robbie Rosa;
It’s all coming back to me now, por Celine Dion;
Feel, por Robbie Williams;
Right here waiting, por Richard Marx;
Unbreak my heart, por Toni Braxton;
If I had words, por Westlife/The Vard Sisters
Offline Profile Quote Post Goto Top
 
Juliana Pellegrino
Advanced Member
[ *  *  * ]
sem comentários......aliás um....amei o fato dela ter ficado com o Urs e eles se amarem tanto... :rolleyes:
Offline Profile Quote Post Goto Top
 
ZetaBoards - Free Forum Hosting
Free Forums. Reliable service with over 8 years of experience.
Learn More · Register Now
« Previous Topic · Fan art · Next Topic »
Add Reply
  • Pages:
  • 1
  • 3

Auspice Zeta created by sakuragi-kun of the ZBTZ