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[FF] Unbreakable; *A sequência de Unmistakable* Terminada!
Topic Started: Jun 12 2006, 10:58 AM (287 Views)
Tatiana
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CENA 16

Pierre de Goale revirava os papéis sobre sua mesa. Estava com os cabelos em pé, desde que o filho resolvera casar-se com uma qualquer. Fazia calor no Texas, mas ele não conseguia se concentrar no clima. Vestia um casaco de couro e chapéu, como se ainda fosse inverno. Contas e mais contas se amontoava sobre o tampo de vidro, ele não sabia mais quanto tempo esconderia sua real situação. Kyle sequer imaginava que a empresa do pai estava falida, e que a única salvação seria o casamento com Gail Donovan, ou seja lá que nome ela estivesse usando. E ele não podia contar ao filho, se Albert ficasse sabendo certamente cancelaria qualquer acordo de casamento.
O homem socou a mesa, fazendo um trincado no vidro, que lentamente tomou toda a extensão da mesa. Após proferir algumas palavras de ódio, muniu-se de sua pistola semi-automática e pegou a limusine, rumo ao aeroporto. Ele não podia deixar por conta dos incompetentes o futuro da sua empresa. Sua ruína era iminente, ele podia ser preso. Não aceitaria ser preso, não aceitaria perder.
Pegou o primeiro avião para a Irlanda, certo de que encontraria o filho e Albert Donovan. Ele os ajudaria a resolver o problema, nem que fosse a última coisa que fizesse. Alisou o cabo da pistola. Poderia até matar, para manter seu império que se despedaçava cada dia um pouco. E fazia realmente muitos dias.
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Tatiana
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CENA 17

Gail sentia-se como uma verdadeira estranha naquela casa que não parecia sua. O bairro, as paredes, os móveis, os quadros, a decoração, nada parecia realmente seu. Era como se ela não se identificasse com nada, absolutamente nada do que estivesse ali. Teve certeza que era uma conseqüência da amnésia, mas algo dentro de si a fazia pensar que, talvez, pudesse ter alguma coisa... errada.

Fazia uma semana que ela estava na casa, e Valerie fora poucas vezes visitá-la. Era a melhor amiga, mas deveria ser ocupada. Gail não sabia que ocupação tinha, não se lembraria do que sabia fazer. Aquilo a deixou ainda mais angustiada, mas ela parecia ter dinheiro para se manter. Afinal, a casa era bonita.
Q
uem sempre aparecia, pelo menos uma vez ao dia, era David Miller. O romântico homem de madeixas levemente coloridas, olhos verdes estonteantes e voz de seda levava flores e mimos de toda espécie para Gail. Ela se sentia lisonjeada. Sentia que devia amar aquele homem de qualquer forma, mas novamente uma voz dentro de si a fazia pensar. Ela se lembrava que não o amava. Apesar de achar coisas estranhas, Gail tentou conformar-se com a vida que levava. Não achava que podia mudar radicalmente tudo de uma vez só porque não conseguia mais ser como era, antes. Não queria mudar, tinha medo de mais mudanças.
E ela estava sentada na sacada, observando o suave por do sol, quando um táxi estacionou na porta da frente. Não era David, pois ele chegava no próprio carro.
De dentro, saíram Albert Donovan, Kyle de Goale e Mary Anne Zimmer, todos falando e gesticulando muito. Gail não soube exatamente se queria atender aquelas pessoas, mas achou que deveria. Antes mesmo que tocassem a campainha, ela estava com a porta aberta.

“Gail!” Exclamou Kyle. “Há quanto tempo não nos vemos...”
O rapaz foi em sua direção e a abraçou. Gail sentiu algo estranho.
“Você é...” Gail tentou eufemizar sua amnésia.
“Kyle. Seu noivo.” Albert Donovan interrompeu.
“Não sou seu noivo.” Kyle retrucou. Gail sorriu e achou melhor pedir que todos entrassem. Se iam lavar roupa suja, que o fizessem em local discreto.
“Vou preparar um café.” Ela tentou ser simpática.
“Ajudo você?” Mary Anne tentou ser solícita.
“Não precisa, tenho cafeteira. Volto em dois minutos.”
Albert Donovan observou a sala, decorada com quadros de pintores famosos, obras de arte e tapetes persas. Olhou por alguns instantes um Van Gogh pendurado sobre o imenso sofá de almofadas fofas.
“Até que gastaram bem o meu dinheiro...” Deixou escapar, sem perceber.
“Como?” Kyle aproximou-se, ouvindo o que fora dito.
“Nada que te interesse, rapaz.”
“Fale comigo com mais respeito, Sr. Donovan.”
Albert virou-se para o jovem rapaz, intencionado a rir descaradamente, mas foi contido pela filha Gail, que apareceu com a bebida brasileira adocicada.
“Acho melhor tentarem ser civilizados aqui. Não vou apartar briga de homem.” Ela foi clara.
“Não existe meios de ser civilizado quando tentam te obrigar a fazer coisas absurdas.” Kyle aceitou uma xícara e sentou-se. “Vim até aqui para lhe contar que estou noivo e te apresentar minha noiva, Mary Anne. Gostaria muito que comparecesse à cerimônia.”

“DEIXEM DE TOLICES!” Donovan alterou-se. “Parem com essa palhaçada, já gastei tempo demais com isso. Gail, você volta comigo para o Texas e casa-se com Kyle. Foi decidido assim praticamente quando vocês nasceram, e vai ser assim e pronto. Ou por bem, ou por mal.”
Albert Donovan exibiu sua arma sem nenhum pudor. Mary Anne descontrolou-se, sendo amparada por Kyle. O casal abraçou-se, temendo que algo realmente ruim fosse acontecer. Gail entrou na frente do pai, colocando-se na linha da arma.
“Vai fazer o que, papai?” Ela foi irônica. “Se quiser me matar, mate logo. Vai ficar sem o que você quer, e eu acabo com essa tortura. Acha que é fácil, não saber quem é e ainda ter gente brigando ao seu redor o tempo todo? Pois estão puxe o gatilho, mas faça logo. Deixe Kyle fora disso, pois seu problema é comigo. Desde que mamãe morreu, seu problema sempre foi comigo. Nunca tive medo de você, e não vai ser agora que vou ter. Vamos, puxe o gatilho.”
O momento de bravura de Gail foi interrompido pelo lampejo de memória percebido por Kyle de Goale.

“Lembra-se da sua mãe, Gail? Lembrou-se de alguma coisa?” O rapaz aproximou-se, ignorando a ameaça de Donovan.
“Não sei... saiu sem querer.” Ela estava assustada. Mais com a lembrança.
“Não lembrou de nada! Está jogando comigo!” Donovan pareceu nervoso. A repentina e provável lembrança de Gail podia comprometer os planos... ele preferiu nem pensar naquilo. Preferiu deixar mais uma ameaça e retirar-se. “Vocês não pensem que vão brincar comigo, pois isso ainda está só começando.”
Albert Donovan saiu batendo a porta, ainda esbravejando. Lá ficaram Kyle, Gail e a histérica Mary Anne sem entender muito o por que ele ficara tão irritado e recuado ao mesmo tempo.
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CENA 18

David rodava de um lado para o outro, deixando Valerie nervosa.
“Então o noivo dela está aqui? E com o pai dela? E foram falar com ela?” Perguntava, pela milésima vez.

“Sim, David. Mas por que isso te interessa tanto?”
“Porque você nunca me contou desse noivo. Você me usou, me colocou nessa história contando mentiras. Uma mentirosa... e eu caí feito pato.”
“Sem essa, David. Não se finja de inocente, você sujou as mãos. Primeiro, contratando o capanga para apagar Gail. Depois, conseguindo a droga.”
David passou a mão pela cabeça repetidas vezes. Sua paciência estava chegando ao limite. Ele não queria nada daquilo, queria apenas ficar com Gail. Apaixonou-se perdidamente por ela, e ele detestava aquela baboseira de paixão. Sempre ouvira que a paixão deixava as pessoas cegas, e tivera a comprovação desta teoria ao sucumbir às sandices de Valerie e aceitar participar do seu plano macabro para separar Gail de Urs. Ela jurou que Gail não se machucaria, que tudo ficaria bem, que ela consolaria Urs e que David poderia ficar com Gail, fazê-la apaixonar-se por ele, também. David fez o trabalho sujo para Valerie, e ela apareceu com um noivo para Gail. Um noivo! David poderia perder definitivamente a cabeça, e não sabia quem levaria consigo. Mas levaria alguém.
“Isso não pode ficar assim. Vou até lá.”
“Não vai, não. O tal Donovan é perigoso, não se meta no caminho dele.”
“Se ele é perigoso, devo estar lá para proteger Gail!”
“Meu Deus, o que todos vocês vêem nessa tal? Mas que coisa... é uma choramingação toda em torno dessa mulher, como se ela fosse frágil, como se fosse quebrar!! Ninguém se preocupa comigo, Urs até agora não me ligou! Ligou para sua namoradinha, mas para mim, nada!!!”
“Urs ligou para Jodi?” David mudou de assunto. Não queria ouvir as reclamações de Valerie.
“Ligou. Estava querendo saber de mim. Mas ela foi esperta... não nos entregou.”
David franziu os lábios e deixou o quarto de hotel, ressabiado. Ele estava perturbado, tomando analgésicos e barbitúricos dia e noite. Carlos dizia que ele era um viciado, mas ele não ligava. Sébastien era um viciado, Sébastien tomava derivados de morfina.
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CENA 19

Gail tinha certeza que não conseguiria dormir aquela noite. A imagem aterrorizante do homem que era seu pai, ameaçando pessoas, portando uma arma, a fez lembrar de algo submerso há muito tempo em seus pensamentos. Gail sequer sabia o que lembrara exatamente, mas sabia que não podia ser uma coisa muito boa. Usou aquilo para afugentar Donovan, para acuá-lo como a uma caça.

Deitada na cama que não era sua, seus olhares divagavam pela noite perdida, ultrapassando os limites das janelas de vidro e chegando até as estrelas. Eram tantas, e pareciam tão solitárias quanto ela. Não sentia sono, apenas um vazio imenso, impossível de preencher. Ouviu passos, virou-se para a porta do quarto e visualizou um homem, cabelos castanhos. Parecia que já o vira antes, mas mesmo assim gritou. Encolheu-se na cama, gritando enlouquecidamente. O homem aproximou-se, cobrindo a boca da mulher com as mãos.
“Não grite... shhhhhh...” Ele tentou acalmar Gail. “Sou eu, não me reconhece?”
Gail olhava assombrada para a face conhecida do rapaz.
“Você... esteve comigo no hospital. Estava lá, eu me lembro... e depois apareceu de novo... quem é você?”

No more talk of darkness
Forget these wide-eyed fears
I'm here
Nothing can harm you
My words will warm and calm you
Let me be your freedom
Let daylight dry your tears
I'm here
With you, beside you
To guard you and to guide you


“Esperava que se lembrasse.”
“Mas não lembro. Devo estar delirando.”
“Quase... eu também estou. Acho que estou sonhando.”
“Então devo estar também, mas eu tinha certeza de que não estava dormindo.”
O homem afastou-se um pouco de Gail. Ela podia sentir seu cheiro. Ele olhou em volta, como se inspecionasse o quarto.
“Nada aqui combina com você.”
“Também acho isso... mas eu comprei, então devo gostar.”
“Não comprou, Gail. Você não é essa pessoa que pensa ser... você é minha mulher. Volta para mim...”
Os olhos do rapaz brilhavam. Gail assustou-se novamente. Permanecia encolhida, como uma forma de defesa. Não que achasse precisar de defesa, mas não se sentia tranqüila o suficiente.
“Não posso ser sua mulher. Eu... conheci meu namorado... caso... amante, sei lá. E ainda tenho um noivo...”
“Você é minha mulher. Precisa voltar para casa, tudo que está vivendo é uma mentira. Pergunte por mim... pergunte por Urs.”
“Você é Urs?”

Let me be your shelter
Let me be your light
You're safe
No one will find you
Your fears are far behind you
All I want is freedom
A world with no more night
And you
Always beside me
To hold me and to hide me


“Pergunte. Procure, você vai me encontrar. Eu estou aí com você, sempre estive, e sempre estarei. Nosso amor não comete erros.”
O homem deu as costas para Gail, e abriu a porta para sair do quarto. Ela pulou em seus braços, descontrolada.
“Não vá, não me deixe sem respostas.”
“Eu não tenho as respostas. Estou sonhando, isso é esquisito.”
“Não está sonhando... estamos... em outra dimensão.”
Urs olhou para seu corpo, para o corpo de Gail. Estavam tão próximos quanto se fossem feitos de fumaça. Pareciam se misturar.

Instantes depois, Urs Bühler acordava gritando, em sua casa, em Paris. Ele tivera uma noite turbulenta, uma febre incessante, que não dera trégua nem um minuto do dia. Seus olhos estavam avermelhados, seu corpo ainda anestesiado pela quantidade de remédios que tomara. Gritou o nome de Gail diversas vezes, tentou agarrá-la, mas ela se afastou. Frau Bühler entrou esbaforida no quarto do filho, preocupada com sua saúde. Urs não era o mesmo desde a morte de Gail, e ela não sabia como ajudá-lo.
“Meu filho, está tudo bem?” Ela encontrou Urs sentado no meio da cama, o suor lhe escorrendo pelo corpo.
“Não está, mãe. Eu a vi... Gail.”
Mae sentou-se ao lado do filho.
“Urs, você precisa aceitar. Gail morreu. Houve um acidente, e ela se foi. Você tem dois filhos, e uma mulher que te ama muito ao seu lado. Precisa retomar sua vida.”
“Não, mãe...” Urs olhou nos olhos da mãe, segurando-a pelos ombros. “Eu a vi. Gail está viva, está em algum lugar. Nos encontramos... nos encontramos mais de uma vez. Ela está perdida, não se lembra de mim. Ela não sabe o caminho de casa, eu preciso encontrá-la!”
“Isso é impossível, meu filho. Não se fala com as pessoas pelos sonhos.”
“Não sonhei, mãe. Mudei de dimensão.”

Then say you'll share with me one love,
One lifetime
Let me lead you from your solitude
Say you want me
And you need me
Beside you
Anywhere you go, let me go too
That's all I ask of you
Say you'll share with me one love
One lifetime
Say the word and I will follow you
Share each day with me,
Each night, each morning
Say you love me
You know I do
Love me, that's all I ask you

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Tatiana
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CENA 20

David achou muito estranho quando Gail ligou, querendo vê-lo. Ele não deveria estranhar, era tudo que queria: a mulher dos seus sonhos interessada em sua presença. Mas ele tinha certeza que as coisas não estavam bem. Desde a aparição de Albert Donovan e o amadurecimento da idéia de noivado de Gail, David sabia que tudo daria errado. Ele havia mergulhado no fundo do poço por uma causa perdida. No final das contas, Gail seria de Kyle ou de Urs, como sempre fora.

Mas ela lhe telefonara, e parecia ansiosa. Ele pode sentir sua ansiedade, pode sentir na fala de Gail que alguma coisa estava errada para ela também. Seria muito bom prestar-lhe o conforto, mas... por que ele pensava que não seria hábil para isso? Deixou o hotel sem nada avisar a Valerie, nem ao menos um bilhete. Dirigiu desanimado até a falsa casa de Gail. Ele precisava tomar uma decisão, mas ainda não sabia se teria coragem. Talvez sua fama o protegesse. Talvez Urs, não.

A mulher estava sentada na sala, observando o teto. As cores mortas da parede não a atraíam. Os quadros também não. Pegou um porta-retratos nas mãos e tentou entender a fotografia em que aparecia abraçada a David. Era como se... tivesse mais alguém naquela foto. Não havia, mas Gail tinha certeza que a pessoa fora apagada. Assim como mais coisa havia sido apagada. Desfeita, desmontada. Ela precisava encontrar os cacos, e reconstruir sua vida. Foi naquele momento que David Miller entrou pela porta. Os olhos azuis estavam levemente desbotados pelo nervoso e pelas drogas.

“O que houve, Gail?” Ele se aproximou. Ela continuou deitada no sofá.
“Eu preciso perguntar uma coisa, e quero a verdade.”
“Acha que menti para você?” David entrou na defensiva.
“Não acho nada. Mas preciso da verdade.” Ela se sentou e olhou David profundamente nos olhos. “Quero saber quem é o homem que estava comigo no hospital.”
David coçou a cabeça, realmente curioso. Ele não podia imaginar que alguém estivera com Gail no hospital, principalmente porque ele estivera com ela o tempo todo. Por alguns breves momentos estivera fora, mas as enfermeiras se tornaram suas ‘amigas’. Elas contariam se outro homem aparecesse por lá.
“Gail, não sei que homem é esse. Na verdade... não poderia ter homem nenhum com você. Como ele era?”
“Cabelos castanhos e olhos como o mel... tinha lindos lábios... ainda posso sentir seu perfume. Ele esteve aqui, ontem à noite.”
“Como?” David assustou-se.
“Bem, não sei se ele esteve exatamente aqui... se me entende. Estivemos juntos. Ele disse que nada é verdade, e pediu para que eu perguntasse por... Urs.”
A simples menção do nome do amigo fez David sentir o mundo girar de pernas para o ar. Seu coração disparou e ele começou a suar. Se já estava nervoso antes, iniciara um processo de auto-flagelo instantâneo ao ouvir Gail. Ela não podia se lembrar de Urs, ela não podia saber como Urs era. E, pela descrição... só podia mesmo estar falando dele. O fantasma Bühler assombrava, mais uma vez. E parecia assombrar mesmo, pois David não conseguia entender como ele ‘apareceu’ para Gail daquela forma.
“De onde você tirou este nome?” David tentou não gaguejar. Suas mãos tremiam. Gail percebeu.
“Ele me contou. Quem é Urs, David? Por que ele veio me dizer para voltar para casa, veio me dizer que sou sua mulher, veio me dizer que nosso amor não comete erros?”
“Ele disse isso? Como? COMO?” David descontrolou-se por um instante. Passou a mão diversas vezes na cabeça, despenteando os cabelos já bastante embaraçados.
“O que houve de verdade, David? O que estão me escondendo?”

O homem olhou para Gail. Ela continuava impassível, sentada no sofá, praticamente na mesma posição de quando ele chegou. Seus músculos não se contraíam, ela estava calma. Enquanto isso, David parecia passado em um moedor de carne, devastado. Todos os seus neurônios foram arrasados pelos questionamentos de Gail. Ele não sabia o que fazer; pela primeira vez em bastante tempo, não sabia como agir. Pensou em Valerie, pensou em Jodi, pensou em Urs, pensou em si mesmo. Na verdade, só pensava em si mesmo. Era egoísta o bastante para não pensar no sofrimento alheio, somente no seu. Pensou se não estaria na hora de ser mais altruísta. De fazer algo pelo próximo. Talvez ele devesse isso a si mesmo, e não fosse tão difícil assim.
“Não vou falar nada agora, Gail. Arrume uma mala para você. Mas seja breve. Se Valerie ligar, não atenda. Não atenda o telefone, para ninguém. Espere que venho te buscar.”
“Como assim? Para onde vamos?”
“Para casa.”
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CENA 21

O céu de Budapeste anunciava chuva pesada enquanto David desviava dos veículos com sua potente Suzuki 1400. Gail, agarrada em suas costas, mantinha os olhos fechados. David parecia desesperado, demorou apenas 10 minutos para se preparar para a fatídica viagem para casa. Deixara Gail, pegara alguns pertences no hotel e desaparecera sem deixar vestígios. Valerie não podia saber de suas intenções, ou tentaria impedi-lo. E David não fazia idéia do que Valerie seria capaz para manter aquela farsa até o fim.

Chegaram ao aeroporto instantes antes do céu desabar. O ruído dos pingos d’água nas telhas de zinco era quase insuportável. Mantiveram-se em silêncio até David encostar-se no balcão da Air France.
“Duas passagens para Paris. Primeira classe.” David disse, colocando toda a sua gama de cartões de crédito à disposição da atendente.
“Onde fica Paris?” Gail não se conteve.
“Na França. É para lá que vamos.”
“Vou conhecer Urs?”
“Sim, vai. Você queria a verdade, vou levá-la até ela. Mas tem uma condição.”
“Qual?”
“Não quero que conte nada para ninguém. Nada aconteceu, nunca aconteceu. Eu encontrei você, e nada mais.”
“Vou ficar sem saber o que houve?”
“Não. Mas vai me dar um tempo para tomar coragem.”
David sorriu para Gail. Ela percebeu que ele não estava bem, podia sentir o tremor de seu corpo apenas ficando próximo a ele. Imaginava que ele poderia tomar muitos remédios, mas não o temia. Achou que deveria dar a ele o tempo que queria, o importante era que chegasse logo naquela ‘casa’ dita por David. O importante era que se encontrasse com Urs mais uma vez...

..............................

“O que está acontecendo com você, Urs?” Carlos perguntou. Estavam caminhando pelas ruas de Madri; Urs foi visitar Carlos e a família assim que pode. Precisava de alguém para conversar, mas estava distante. O amigo falava e Urs nunca respondia, não parecia presente.
“Nada... estou prestando atenção nas vitrines.”
“Sei que está! Tem alguma coisa, você não quis falar na frente de Geórgia. Tudo bem, mulher só sabe dar palpite mesmo, mas... agora sou eu!”
“Você acredita no sobrenatural?” Urs foi direto.
“Como? Você quer dizer essas besteiras de astrologia, paranormalidade?”
“Mediunidade.”
“Ih... sei lá.”
“Acreditaria se eu te dissesse que estive com Gail?”
“Talvez. Ela veio te dizer que está tudo bem?” Carlos parou em frente a uma loja de crianças. Examinou por alguns instantes os brinquedos. “Vou entrar, quero levar presentes para Carla.”
“Carlos... Gail não está morta.”
“Ai, Deus... mais essa agora. Urs, nós enterramos sua esposa. Você a viu no caixão, ela está morta.”
“Não foi ela, eu nunca vi aquele corpo. Disseram que era ela, eu acreditei. Mas não era, Gail está viva. Em algum lugar, mas ela está. E não sabe o caminho de casa.”
Carlos coçou a cabeça. Ele estava começando a ficar cansado de ser o mais sensato do grupo. Depois que Urs surtou, ele assumiu o papel. Virou pai de família responsável e por isso todo mundo o achava o máximo. Mas aquela missão era muito entediante.
“E o que pretende fazer?”
“Quero encontrá-la. Faço o que for preciso, pago recompensa. Quero Gail de volta.”
“Vão pensar que você está louco.”
“Que pensem. E você vai me ajudar.”

................................

O imenso avião pousou no aeroporto internacional de Paris às 19h em ponto. O clima da capital francesa não estava nada ameno, fazia um frio terrível e o vento gelado obrigava os transeuntes a usarem echarpes e gorros. Gail dormira a viagem inteira, David lhe ofereceu um calmante e ela, de bom grado, aceitou sem pestanejar. Dormira por muito tempo, mas sentia como se tivesse dormido muito mal. Os olhos claros de David fitaram a bela cidade por alguns instantes antes de acordar a mulher que dormia serena ao seu lado.


What can I do, to make you mine
Falling so hard so fast this time
What did I say, what did you do?
How did I fall in love with you?
What can I do, to make you mine
Falling so hard so fast this time
Everything's changed, we never knew
How did I fall, in love, with you?



“Gail… chegamos.” Ele disse, enquanto acariciava sua face. A mulher despertou ainda sonolenta, e muniu-se de um casaco para deixar o avião.
Os dois pareciam completamente perdidos. Gail não sabia o que fazia ali, e não conhecia o lugar. Era totalmente diferente, pensava. Não se parecia com Budapeste, e ela não se recordava de ter estado em um aeroporto antes. E David estava ainda imaginando como levar Gail de volta para Urs sem causar estardalhaço. Ele precisava aparecer com ela sem que ninguém desconfiasse que estava envolvido em nenhuma armação. Aquilo não seria fácil.
“O que fazemos, agora?” Gail olhava em volta, observadora.
“Precisamos chegar em casa.”
“Pensei que estávamos indo para casa...”
“Casa é em Lucerna. Agora vamos pegar outro avião para lá... chegaremos mais tarde.”
Gail torceu o nariz, mas não havia nada que pudesse fazer. Se David dizia que era daquele jeito, ela não podia sequer discordar. Não sabia onde ficava Paris, menos ainda onde seria a tal Lucerna. E também não fazia idéia do que encontraria quando chegasse ao destino final; não sabia se encontraria realmente a vida que esquecera.
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CENA 22


“Você está querendo me enganar, Donovan!” Pierre de Goale socou a mesa arredondada do café onde se encontrava. “Onde está meu filho Kyle?”
“Já disse que não sei. Estávamos no mesmo hotel, mas ele encerrou sua conta hoje.” Albert Donovan terminou calmamente seu capuccino, e olhou o relógio. Eram sete da manhã e ele iria se encontrar com Valerie para traçar uma estratégia de ataque. “Deveria se acalmar, meu velho amigo... os meninos disseram que não vão se casar de forma alguma, precisamos pensar como resolver isso.”

“Achei que já tivesse a solução!” Pierre de Goale estava irritado. Não conseguia conter o tom de voz. “Afinal, sua filha estragou tudo.”
“Não me venha com essa, me caro. Desde quando seu filho está aceitando casar-se com Gail? Ele anda para todos os lados com a mestiça a tira-colo, levou-a para apresentá-la para Gail!”
“Está dizendo que Kyle não vai honrar sua palavra?”
“Claro que não vai!” Albert Donovan enfrentou a ira desenfreada do amigo. “A palavra foi sua, homem! Eles não vão ceder, precisamos mudar de tática.”
Enquanto discutiam, o celular de Donovan tocou. Ele atendeu, entediado. Não sabia o que Valerie queria, iriam se encontrar em poucos minutos.
“Gail fugiu!” Valerie disse, descontrolada. “Gail fugiu!”
“Como assim? O que quer dizer?”
“Cheguei na casa dela e ela não está. Não tem roupas no armário... não consigo falar com ela, ela fugiu!”

“Como deixou isso acontecer?” Foi a vez de Albert Donovan se irritar. Pierre de Goale assistia à conversa sem muito entender, mas sabia que alguma outra coisa estava errada. “Não era sua função tomar conta dela?”
“Não venha me culpar, Donovan!” Valerie estava uma pilha de nervos. “Ela desapareceu porque forçaram a barra com esse negócio de casamento! Sabe quanto posso perder se essa sua filha aparecer do nada? Fique sabendo que não vou para o buraco sozinha!”
“Não me ameace, mulher! Não sabe com quem está lidando.”
“O pior é que David também desapareceu.” Valerie divagou. “Não sei como fazer para encontrá-la, você terá que intervir.”

Albert Donovan desligou o telefone, grunhindo como um porco. Teve vontade de ter o pescoço de Valerie em suas mãos e apertá-lo com toda a força que pudesse. Incompetente, ele pensava. Não podia confiar em ninguém para fazer o que ele mesmo deveria fazer. Era sua função de pai colocar as coisas em ordem, e ele o faria. Nem que aquilo custasse a vida de alguém.
“Gail desapareceu. Temos que encontrar ela e Kyle, agora.”
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[ *  *  * ]
CENA 23

“Já chegamos em casa?” Gail acordou, esfregando os olhos e percebendo a presença de David. Ela dormia desde que desembarcara em Lucerna, sob efeito dos sedativos de David. E ele passara o dia a observá-la dormir.
“Mais ou menos. Estamos em um hotel.” Ele sorriu. Tinha certeza que perderia o amor de sua vida; tinha certeza que jamais a tivera. David jamais entenderia por que tinha que se apaixonar justamente pela esposa de seu amigo; justamente por Gail, uma situação tão complicada. Ele nunca se apaixonava, e entendia por quê. “Assim que...” Ele recusou-se a dizer o nome. “Assim que acordarmos no dia seguinte, levo você para sua casa de verdade. Vamos jantar.”
“Jantar? Que horas são?”
“Nove da noite.” David achou graça do susto tomado por Gail.
“Está bem... preciso de um banho. Onde tem um banheiro?”
“Aqui mesmo. Estamos em um hotel, não tem muito para onde ir. Logo naquela porta tem uma deliciosa hidromassagem, aproveite o banho. Vou preparar alguma coisa para você comer.”

Gail sorriu meio constrangida. Ouviu David fechar a porta atrás de si. Pensou nele por alguns instantes, acostumara-se a pensar nele. Sua cabeça era um grande vazio, e David era uma das únicas coisas agradáveis que tinha para pensar. Levantou-se e surpreendeu-se com o banheiro destinado aos hóspedes. A decoração em tons vivos de azul, flores, uma imensa banheira redonda; Gail ficou extasiada com tanta beleza em um simples... banheiro.

Submersa na água quente e com espuma o bastante para inundar toda a casa, Gail ficou pensativa, por alguns instantes. Percebeu que ainda nevava muito, o tempo estava cada vez mais feio. Ouviu um ruído, e virou-se assustada para a porta. Deixou seu corpo relaxar ao visualizar David.
“O jantar está pronto.” Ele sorria.
“Não bate antes de entrar?” Gail não estava constrangida, por mais que aquilo parecesse surreal.
“Bateria, mas você não fechou a porta...”
Gail baixou o olhar e fitou a espuma por alguns instantes. As bolhas iam e vinham. Ela pode sentir as batidas do seu coração, e pode ouvir a respiração de David. Ele tinha os olhos mais serenos, talvez menos dopados. Sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo e imediatamente viu a imagem de Urs em sua frente. Levantou o olhar e David estava sentado na borda da banheira, a observá-la.
“Você está cada dia mais linda...” Foi o que ele disse, antes de segurá-la com a mão direita e beijar seus lábios intensamente.


Still feels like
Our first night together
Feels like the first kiss
It’s getting better baby
No-one can better this
Still holding on
You’re still the one
First time our eyes met
Same feeling I get
Only feels much stronger
I wanna love you longer
You still turn the fire on


Gail fechou os olhos e sucumbiu ao beijo de David mais uma vez. Era a segunda vez que se beijavam, e ela ficava cada vez mais confusa. Nada que não fosse normal; desde que acordou do coma tudo era confuso. Deixou-se envolver pelo toque dele, enquanto ele acariciava seu corpo nu. Sentia arrepios, sensações que lhe pareciam novas. Talvez fossem novas, mas Gail não podia ter certeza. Novamente, Urs lhe apareceu à frente, olhos castanhos profundos. Estava sério, a observava com reprovação. Mas era tarde, e Gail não pretendia parar.
Ajudou David a livrar-se das pesadas roupas e puxou-o para a banheira. Água se esparramava pelo chão de pedras em vários tons de azul, enquanto os dois se amavam em meio ao aroma dos sais de banho e do vapor que embaçava os vidros.

So if you’re feeling lonely, don’t
You’re the only love I ever want
I only wanna make it good
So if I love you a little more than I should
Please forgive me
I know not what I do
Please forgive me
I can’t stop loving you
Don’t deny me
This pain I’m going through
Please forgive me
If I need you like I do
Please believe it every word I say is true
Please forgive me
I can’t stop loving you


“Já fizemos isso antes, não é, David?” Gail olhava para as estrelas de papel fosforescente, ordenadamente coladas no teto do quarto. Estava lá, nos braços de David, desde vários minutos. Talvez horas. Já nem sentia mais o aroma da comida pedida por ele.
“Por que pergunta?” David não sabia o que dizer.
“Porque eu vi... como se fosse um filme, um filme ruim... eu vi você, eu me vi, mas era muito complicado.”
“É... nós já fizemos isso antes, umas vezes. E, em todas elas, foi sensacional.” David pensou que era melhor não mentir; não daquela vez.
“E você, mais uma vez, não vai me contar nada?” Gail se sentou na cama. Estava enrolada em cobertores, e a neve ainda caía abundante.
“O que você quer saber?”

“Tudo. Você disse que é meu namorado. Mas agora sei que tem alguma coisa errada, e Urs é a chave para que eu entenda o mistério. Mas você me trouxe aqui... por quê? O que houve comigo, exatamente?”
“Não posso contar tudo, Gail. Mas... Urs é seu marido.” David também se sentou. Depois se levantou e começou a caminhar pelo quarto. Gail ficou surpresa com a revelação, mas manteve o silêncio. “Vocês são casados há quatro anos, e têm dois filhos, Kirsten e Dylan. Bem, acho que na verdade vocês têm só um filho.”
“Não entendi...” Gail estava com a cabeça fervendo, tantas eram as informações que a faziam ver um embaralhado de formas e imagens distorcidas. “Se sou casada com Urs e tenho até filhos... o que fazia com você?”
“Você descobriu que Urs tinha um caso e eu te consolei. Foi sua vez de dar o troco... ficamos juntos, se posso dizer assim.”
“Nossa... eu era uma pessoa horrível.”
“Já disse que não.” David acariciou a face de Gail. Seus olhos brilhavam, expressivos.
“E... por que acha que só temos um filho, se temos dois?”
“Bem...” David engoliu seco. Ele jamais tocara naquele assunto, principalmente porque Gail jamais aceitaria. Ela nunca magoaria Urs, mesmo que sem querer. “Isso é um pensamento. Quanto você conhecer Dylan, vai entender. Você engravidou enquanto estávamos... juntos. E eu sabia que você e Urs praticamente não estavam... tendo sexo.”
“Meu Deus...” Gail arregalou os olhos, boquiaberta. “Você acha que o menino é seu filho!”

“É, acho.” David pareceu constrangido. “É que ele se parece muito comigo, sabe? Apesar de não parecer nas feições, ele claro, olhos bem verdes... cabelos lisos... tão diferente de Urs e de Kirsten...”
“Não diga mais nada.” Gail abraçou David, ternamente. “Seja lá como isso for doer, é melhor doer logo. Temos que descobrir se isso é verdade, mesmo correndo o risco de magoar alguém.”
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Tatiana
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CENA 24

Albert Donovan havia terminado mais um telefonema, e preparava-se para dormir. Ligara para todos que conhecia, e conseguira o nome do melhor detetive da Europa. Se alguém poderia encontrar Gail, seria aquele homem chamado Alessandro Garmo. Segundo seu amigo Larry Garmo trabalhou para mafiosos italianos por muito tempo, e desde que a máfia fora desmembrada ele estava fazendo trabalhos particulares.
Por último, ligou para Stephanie. Precisava saber se os gerentes estavam comandando seu império decentemente. Não costumava se ausentar por tanto tempo, mas tinha um bom motivo. Antes de entrar no banho, retirou de dentro da bolsa uma fotografia amarelada. Uma linda mulher de cabelos loiros, cachos derramados sobre os ombros, sorria inocentemente. Albert beijou a fotografia, seu semblante ríspido e antipático adquiriu feições mais amistosas.
“Gostaria que estivesse aqui, Josephine. Sua filha está me dando muito trabalho... muito.”, pensou, sozinho no quarto. A campainha tocou, fazendo com que Albert Donovan retomasse sua postura desagradável. Colocou a foto em sua valise e foi até a porta.
“O que você está fazendo aqui?” Albert não gostou do intruso que chegava tarde da noite.
“Você é mesmo um incompetente... não serve para nada.”
“Não se atreva a falar comigo nesse tom!”
“Você não se atreva!” A pessoa mostrou-se irritada. Retirou uma arma prateada do coldre e a apontou para Albert Donovan. “Não sabe com quem fala, nem o que fala! Por sua causa meus planos foram todos por água abaixo. Todos! Você é um canalha!”
Sem perceber outra saída, Albert entrou em luta corporal com o intruso, tentando tomar-lhe a arma das mãos. Um estampido foi abafado pelo silenciador meticulosamente colocado no cano da Magnun. O intruso afastou-se, apavorado com o sangue que esvaía, escorrendo pelo chão. Em poucos instantes, tudo estava vermelho e com odor ácido. Albert Donovan jazia em uma poça de sangue ainda não coagulado, enquanto seu assassino fugia pelas sombras da noite romena.
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CENA 25

David olhou diversas vezes para a porta da casa de Urs, sem saber o que fazer. Entrar e conversar com o amigo parecia muito simples. Ele ainda não sabia o que fazer com Gail, ela estava adormecida, em sua casa. Não podia levá-la para lugar nenhum, ou ela seria reconhecida. Não podia levá-la para Jodi, ou Valerie descobriria. E estava lá, enfrentando o frio inverno suíço enquanto pensava em uma solução, no meio do jardim.
A neve não parava de cair, mas David continuava parado, sem reação. A imensa porta de madeira se abriu e uma criança encapuzada saiu, aos berros.
“Vovó! Venha ver, está nevando!” Era Kirsten, a filha de Gail e Urs. A linda menina de 3 anos tinha os mesmos olhos da mãe. Logo atrás dela, saiu Frau Bühler com Dylan no colo. Toda vez que David olhava para Dylan, seus olhos brilhavam. O menino estava cada vez mais lindo.
“David... você aqui?” Frau Bühler não entendeu a visita do rapaz. Urs não estava em casa.
“Bom dia... vim procurar por Urs.”
“Ele está com Carlos, em Madri. O que foi, parece aflito!”
“E estou.” David não conseguia esconder o nervosismo. “Tenho uma notícia muito complicada para dar a Urs... creio que ele ficará feliz.”
A mulher segurou Kirsten pela mão e pediu que a menina se limitasse a brincar no jardim. Não passavam carros no local, mas ela era uma avó zelosa demais. Fez um sinal para que David se sentasse com ela, na varanda, ao abrigo da neve.
“O que foi, filho?”
“É que... bem... eu fiz uma viagem. Precisava espairecer... as coisas estão muito difíceis desde a morte de Gail. Só fizemos alguns shows e nossas ‘férias’ podem ser mal interpretadas. Foi quando... eu a encontrei.”
Frau Bühler arregalou os olhos. Um arrepio gelado lhe percorreu a espinha, e as palavras de Urs lhe vieram à cabeça: “Gail está viva!”.
“Como? Quero dizer... encontrou Gail? Como a encontrou?”
“Ela estava em um hospital. Eu me feri... fui a um pronto socorro e lá estava ela.”
“Mas por que ela não voltou para casa? Por que não pediu que nos avisassem?”
“Ela não se lembra de nada. Está com amnésia. Não sabe quem é, ou quem é Urs, ou que tem filhos.”
“Isso é... fantástico. Urs vai ficar radiante!” A mulher parecia não caber em si. O susto passara, e Frau Bühler começou a saracotear como se estivesse ligada em alta voltagem. “Vou ligar para ele, agora mesmo. Onde ela está?”
“Eu a trouxe. Está em um hotel.”
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CENA 26

Urs rodava de um lado para o outro no aeroporto de Madri, falando sem parar. Algumas pessoas o observavam; não era sempre que se via um homem famoso dando um chilique em um aeroporto num dia de nevasca.
“Mas como não tem vôo?” Ele repetia. A atendente da companhia aérea não sabia mais como responder.
“Sinto muito, senhor... foram cancelados pelo mau tempo.”
“Mas eu preciso chegar em Lucerna agora! Agora, entende?”
A atendente fez um gesto com os ombros. Carlos aproximou-se cuidadosamente do amigo.
“Urs, deixa... você vai amanhã. Não tem como, está tudo obstruído pela neve.”
“Mas ela está lá, Carlos! Gail!”
“Ela está bem, está com David. Amanhã vocês se encontram. Ela... nem sabe quem você é, mesmo.”
“Claro que sabe! Ela sabe... nos encontramos, eu disse.”
Carlos fez um gesto negativo com a cabeça, e desistiu de discutir. Se o amigo queria passar o dia naquele aeroporto tentando chegar em Lucerna, ele não podia fazer nada. Ao menos ele ainda não tivera a idéia ir de carro. Foi até uma banca e comprou um jornal, queria se atualizar. Andava bem informado a respeito da vida política do mundo e sobre as páginas policiais. Não entendia seu desejo consumista de sangue, mas precisava saciá-lo de forma saudável. Depois que leu o que lhe interessava, ofertou o jornal a Urs, na intenção de que o amigo se distraísse por alguns míseros minutos.
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CENA 27

“Não quero ir, David.” Gail resmungava, enquanto tomava o café da manhã na belíssima sala. “Não os conheço, sei que vou decepcioná-los.”
“Você é mãe deles, nunca vai conseguir decepcioná-los.” David queria levar a mulher para ver os filhos, pois fora avisado que Urs não estava conseguindo vôo de volta a Lucerna. “E Dylan não sabe de nada, ainda é muito novo. Kirsten acha que você está no céu, mas não deve ser difícil explicar seu retorno.”
“Não sei, acho melhor esperar por Urs.”
“Fala dele como se lembrasse.”
“Eu... não lembro. Mas sei quem ele é, ele esteve comigo no hospital. Ele foi até meu quarto, na Romênia. Ele me procurou e me contou a verdade.”
David baixou os olhos. Incomodava quando Gail sugeria que ele era um mentiroso. Ele era coisa pior do que um mentiroso; era um medíocre que teve coragem de ferir a mulher que amava para ficar com ela. Seu egoísmo ultrapassava os limites do tolerável; tudo que fazia era pensando em si e mais ninguém. Ele sabia disso, mas nem sempre era bom ouvir isso.
“Por que você não tem raiva de mim?” Ele resolveu arriscar e perguntar.
“Não consigo ter raiva. Eu vejo você e não consigo lembrar de você, isso me deixa muito agoniada. Seja lá o que tenha feito você mentir para mim, eu não entendo e não posso julgar. E levo em consideração que você está se redimindo.”
“Estou tentando. Mas ainda acho que você deveria ver seus filhos.”
“Tudo bem, eu vou. Mas de tarde. Preciso me preparar, preciso me concentrar.”

....................................

Enquanto uma nesga de sol tímido tentava vingar no céu nublado e assustador daquele dia em Lucerna, a campainha dos Bühler tocava várias vezes seguidas. O mordomo Harold, com toda polidez possível, foi calar o impaciente. Surpreendeu-se ao encontrar Urs na porta, batendo o queixo. O homem entrou correndo em casa, com Carlos tentando segui-lo.
“Onde ela está?” Ele olhou para Harold, que não sabia o que responder.
“Sr. Bühler... ela quem?”
“Gail! Por quem mais eu procuraria? Onde ela está, onde está Gail?” Urs estava descontrolado. A viagem de carro de Madri para Lucerna foi assustadora para Carlos. Urs guiava como um louco pelas estradas sinuosas e cobertas de neve.
“Ela não está nessa casa, Sr. Bühler...”
Antes que o mordomo pudesse pensar em continuar, Frau Bühler apareceu. Ela estava na casa de Urs quase que permanentemente; ninguém mais cuidava das crianças desde a suposta morte de Gail. Urs estava cada vez mais atordoado, e Valerie não gostava de ter os filhos dele por perto.
“Onde, mãe?” Urs sacudiu a velha mulher.
“Com David, meu filho. Ele a trouxe e disse que ela está em um hotel, mas não sei qual.”
“Ligue para ele!” Urs deu o telefone para Carlos. “Ligue, eu estou uma pilha de nervos.”
“Ainda bem que reconhece!” Carlos discou os números do amigo. “Arrume um calmante para Urs ou ele vai ter uma síncope. Está assim desde que você ligou avisando que Gail estava aqui.” David atendeu o aparelho, apreensivo ao perceber os números de Urs.
“Fale, Urs.”
“Sou eu, Carlos. Pelo amor de Deus, você está com Gail?”
“Sim... estávamos nos preparando para ir até a casa de Urs, ela quer ver os filhos.”
“Então venha rápido, por favor. Urs está pirado, e não sei quanto tempo vou tolerar sem surrá-lo.”
David deu uma risada e disse ao amigo que estaria chegando na mansão dos Bühler o mais rápido possível. Depois olhou para Gail mais uma vez. Dentro de si, ele sabia que era a última vez que a via daquela forma, totalmente sua.

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CENA 28

O encontro com a casa foi complexo. Gail quis fazer o trajeto a pé, enquanto pensava. Nada lhe vinha à cabeça, mas ela pensava assim mesmo. Seus olhos pareciam perdidos, como se estivesse em outra dimensão. David a acompanhava, sempre alguns passos atrás. O caminho foi automático, Gail agiu como se soubesse para onde estava indo. Mas em sua cabeça tudo se misturava, desde vozes até imagem, e ela não conseguia ver nada com clareza. Imaginava encontrar um marido e dois filhos e ter que suportar não reconhecê-los. Teria que suportar não saber nada de sua vida quando ela pulasse em sua frente, sem piedade.
Sentiu-se menos forte quando se aproximou da porta e, com dedos trêmulos e hesitantes, apertou a campainha. David achou melhor deixá-la sozinha porque não queria presenciar nenhuma cena familiar. O rangido da estrutura de madeira fez com que fechasse seus olhos, temendo abri-los e encontrar o que não desejava. O silêncio de um minuto ficou insuportável. Lentamente, Gail descolou as pálpebras. A imagem colorida de Urs fixou-se em sua frente. Sentiu que o tempo parou, assim como tudo que estava ao redor ficou imóvel.


I want one moment in time
When I'm more than I thought I could be
When all of my dreams are a heartbeat away
And the answers are all up to me
Give me one moment in time
When I'm racing with destiny
Then in that one moment of time
I will feel
I will feel eternity


Gail estendeu a mão e tocou a face de Urs, que parecia concentrado em seu olhar. Os mesmos olhos castanhos, a mesma expressão. Era mesmo ele que vira em seus sonhos insanos. Foi a vez dele fechar os olhos, como se o toque de Gail injetasse uma grande quantidade de morfina em seu organismo. Urs segurou a mão da mulher por alguns instantes, levou até seus lábios e a beijou.
“Urs...” Ela disse, sem nem ter certeza do que dizia. O homem a fez entrar, pois começava novamente a nevar. A casa parecia vazia. Todos se afastaram; ninguém queria interferir naquele momento. Era algo além das forças do Universo, eles não puderam sequer ser separados. Onde Gail estivesse, Urs estaria ao seu lado, não importando o quão impossível aquilo fosse.
“Esperei quase um ano para ter você de volta.” Ele conseguiu formar uma frase. Os dois ainda estavam em pé, olhando um para o outro.
“Mas você me encontrou, isso que importa, não?”
“Sim, claro. Eu encontrei você. Um dia eu jurei estar com você sempre; eu jurei te proteger...” Urs não conseguiu terminar a frase. Desabou em um choro profundo, inconsolável. Ele não protegera Gail porque estava envolvido com outra mulher, porque era um canalha, um fraco, um insensível. Sentiu-se desprezível, não merecedor do amor de Gail. E ela estava ali na sua frente, serena.
Gail envolveu Urs em seus braços. O calor daquele abraço poderia aquecê-la para sempre.
“Não faça isso...” Ela referiu-se às lágrimas. “Não me faça sentir culpada.”
“Você não tem culpa de nada.” Urs não sabia do que Gail sabia. “Fui eu quem deixou que algum mal te acontecesse. Fui eu!”
“Urs...” Gail segurou a face do homem em suas mãos frias, quase congeladas. “Não é hora de ficarmos nos culpando. Eu esqueci o passado; mesmo que não seja por perdão, eu esqueci. Precisamos olhar para frente, não vamos conseguir trazer várias coisas de volta. Eu... por incrível que pareça, você é a única pessoa que sinto saber quem é. Estou confusa, fique ao meu lado, seja forte por mim, por favor.”


I need your tender kisses
The feel of your hands, your caress
Your perfume has me burning
My heart is yearning to touch you I need you so much
If you're not here, by my side
Can't hold back the tears
I try to hide
Don't think I can take it
I know I won't make it
Make it without you
If you're not here, by my side
Only your love, keeps me alive
No sense in dreaming
My life has no meaning
If you're not here


Urs enxugou as lágrimas com uma das mãos e acariciou Gail com outra.
“Como você consegue ser tão forte? Passando por tudo isso, eu não suportaria.” Urs aproximou seus lábios dos de Gail, fazendo com que se tocassem suavemente. Esperou muito tempo por aquele beijo. Era como se tivesse acabado de conhecer Gail; foi o mesmo beijo que o deixou desconcertado no estúdio, anos atrás. Sentia como se nunca a tivesse beijado, tanto desejo havia contido.
Durou minutos, incontáveis e incansáveis minutos. Quanto mais Urs permitia que sua língua explorasse os lábios de Gail, mais ele a trazia para perto de seu corpo.
“Eu te amo.” Ele disse. “Não sei como pude pensar diferente um dia, mas eu te amo. Sempre amei, desde a primeira vez que te vi. Você pode me perdoar?”
“Não tenho razões para ter mágoas, Urs.” Gail sentiu-se constrangida. “Só não posso ainda dizer que te amo. Eu... preciso me descobrir, primeiro.”
Urs sorriu, e levou Gail para ver as crianças. Kirsten precisaria entender que a mãe havia voltado, depois de tanto tempo viajando pelo “céu”. Talvez fosse muito para sua cabecinha infantil, mas era melhor ter a mãe por perto do que explicações racionais.
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CENA 29

Valerie quase derrubou a porta do hotel onde estava David. O homem estava entupido de analgésicos, mas conseguiu levantar-se e abrir a porta para a ex-comparsa.
“O que você está fazendo aqui, David?” Valerie entrou mesmo sem ser convidada. Olhou rapidamente ao redor, mas nenhum sinal de Gail.
“Eu estava quase dormindo, aí você chegou.” Ele foi irônico.
“Não brinque comigo!” Valerie parecia histérica. “Gail sumiu, tenho certeza que você sabe onde ela está.”
“Sei sim... com Urs, agora.”
“O QUE?” Valerie gritou, descontrolando-se. “Como pode? Como se atreveu a entregar tudo? Eu vou acabar com você, David Miller...”
“Antes de continuar seu ataque, é bom que saiba que Gail não contou nada a ninguém, nem vai contar. Ela confia em mim e não sabe exatamente o que fizemos. Portanto, cale sua boca e recomponha-se, ou você é quem vai acabar se entregando.”
“Por que você a trouxe?”
“Porque eu quis.” David jogou-se no sofá. “Cansei de mentiras, cansei de ser manipulado por você, por Jodi, por todo mundo. Gail sabia de Urs, ela me perguntou. Achei melhor trazê-la antes que recuperasse a memória. Todos acham que eu a encontrei em um hospital, perdida. E você... você não ia cumprir com sua parte no acordo. Gail ia ser obrigada a se casar com aquele tal Gile, Kyle, sei lá!”
“Você me paga, David Miller! Você me paga!”
Valerie saiu correndo da casa de David, bufando como um touro enraivecido. Havia um ódio incontrolável em seu olhar. Depois do que fizera, foi tudo em vão. Nada se aproveitaria, ela se sujara à toa. Deveria imaginar que não podia contar com David, um homem apaixonado é sempre um tolo. Ela só não imaginava que David tivesse um lampejo de consciência e altruísmo; o primo sempre pensara apenas nas suas vontades. Ela tinha que fazer mais alguma coisa, só não sabia o que.
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CENA 30

“Ainda não acredito que você está aqui.” Urs disse, enquanto jantavam. Gail conhecera os filhos, explicara para Kirsten sua volta repentina e ganhara vários beijos da menina; também tivera o prazer em segurar Dylan nos braços. Uma questão lhe povoou a cabeça ao verificar que ele era realmente diferente dos outros, destoando do resto da família. Poderia David estar dizendo a verdade, poderia mesmo aquele menino ser seu filho. Quando as crianças finalmente adormeceram, havia uma mesa farta aguardando Urs e Gail para o lanche. Carlos voltara a Madri.
“Às vezes, nem eu acredito.” Ponderou Gail.
“Como se sente?”
“Em relação a que?”
“A tudo... gostaria de saber tudo que sente.”
“Nem eu sei.” Gail sorriu. Estavam apenas os dois, no jardim de inverno. Urs lhe contara que costumava gostar das refeições no jardim. “Mas sei que estou confortável aqui.”
“Melhor que sua casa na Romênia?”
Gail olhou para Urs, surpresa. Ele não pensou no que falara, apenas deixara escapar.
“Não sabia que...”
“Você sabe que eu estive lá. Sabe que...”
“Obrigada, Urs.” Gail aproximou-se do homem e o beijou na face. “Você me ajudou a encontrar alguma liberdade.”
Ficaram em silêncio até o final do jantar. Havia muito que Gail queria perguntar, e pouco que Urs podia responder. Era uma situação diferente, ele sempre se sentira totalmente à vontade com ela. Mas aquela mulher, por mais que parecesse o contrário, não era Gail. Não era a mesma com quem se casou, e talvez ela nunca voltasse a ser. Mas ele sabia que a amava, a amaria para sempre.
“O quarto já está preparado, Sr. Bühler.” Harold interferiu, aparecendo para recolher os pratos.
“Quarto?” Gail ficou curiosa.
“É... não sei onde quer dormir. Então, pedi que Harold arrumasse o quarto de hóspedes. Não quero... impor minha presença a você.”
“Não achei que ficaria aqui.”
“Quer voltar para o hotel?”
Gail franziu as sobrancelhas. Havia desapontamento nas palavras de Urs, e também algumas mentiras. Imaginou que David houvesse mentido, como antes. Preferiu deixar como estava, mas não quis voltar para o hotel de David. Ela ainda sentia algo esquisito em sua presença. Não tinha certeza se era porque haviam feito amor uma noite antes, ou se recordava algo do passado, mas sentia-se estranha. Tinha vergonha, ele fora seu amante. E ela detestou ouvir aquela palavra, desde a primeira vez.
“Não...”

Gail caminhou pelos corredores imensos da mansão dos Bühler e, mesmo sem ajuda, encontrou o quarto. Seu quarto, o quarto de Urs. Era imenso, era lindo. Fechou os olhos e deixou-se convencer que estava sonhando. Recordava-se, mesmo sem lembrar, de cada item ali colocado. O imenso closet ainda guardava suas roupas. Pode sentir o aroma de um perfume adocicado e teve certeza que era seu perfume. Sobre a bancada do banheiro estavam seus hidratantes, sais de banho, sabonetes. Tudo como se nunca tivesse sido usado naquele tempo de ausência.
“Não tenho usado este quarto.” Urs a tinha seguido. Estava em pé, na porta do quarto.
“Por quê?”
“Ele... me faz pensar em você. Tudo aqui é você.”
“Obrigada por me respeitar, Urs.” Ela sorriu. Ele não entendeu.
“Como assim, respeitar?”
“Do jeito como o quarto está, acredito que esteja sem uso. Você nunca a trouxe para dormir aqui.”
Urs sentiu um rubor lhe tomar a face, no mesmo instante em que Gail ficou confusa sobre o que tinha falado. Ela não sabia o que lhe fizera pensar assim, mas tinha certeza que... Urs nunca levara Valerie para dormir naquele quarto. Por que Valerie, ela não sabia. Valerie era a amiga que conheceu na Romênia. Mesmo que estivesse vivendo uma mentira lá, o que teria Valerie e Urs, ela não sabia. Não tinha certeza.
“Você... você se lembra?”
“Não sei exatamente do que me lembrar. Ao entrar aqui, foi como se já conhecesse o lugar. E soube, apenas, que você nunca trouxera sua amante para cá. Foi estranho... pensar assim.”
Urs aproximou-se de Gail. Abraçou-a apertado contra o peito. Ela sentiu seu cheiro, ficou embriagada. Ele era lindo... sentiu arrepios; não imaginou que sentisse aquilo sempre.

“Eu nunca a trouxe aqui. Apesar de ela achar que você estava morta e querer se casar, eu nunca quis. Cometi erros, fui idota, agi feito um crianção. Bem feito, ninguém mandou que seguisse conselhos de David... Sébastien... todos uns depravados. Senti falta de ser chamado o ‘coerente do grupo’; quase não há mais grupo, agora.” Urs deu um beijo em Gail. Ela não ousava resistir a ele, não seria tão burra. “Esse sempre foi seu quarto, você o fez, você pertence a ele tanto quanto ele pertence a você. Mas eu não te respeitei, eu causei tudo isso. Se não tivesse dado ouvidos ao meu pênis, nada disso teria acontecido.”
Urs torceu o nariz e afastou-se. Entrou no closet e pegou uma roupa.
“Vai aonde?” Gail não queria que ele saísse dali.
“Para meu quarto. O quarto que tem sido meu.”
“Mas... não é justo você não ficar aqui.”
“É sim. Um dia vai lembrar, e saber que o justo seria eu dormir no sofá.” Urs sorriu e beijou Gail novamente. “Se precisar de mim, estou no quarto ao lado das crianças. Pode ser que Kirsten apareça... ela sempre acorda de madrugada à sua procura.”
“Pode deixar. Acho que saberei entretê-la.”
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