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[FF] Unbreakable; *A sequência de Unmistakable* Terminada!
Topic Started: Jun 12 2006, 10:58 AM (284 Views)
Tatiana
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[ *  *  * ]
[size=7]Unbreakable[/size]
(the sequel from Unmistakable)


I'm feeling so alone now tonight
Even though you're here by my side
Is there something on your mind
From the world you'd left behind

I feel as if the loved shared before
Doesn't wanna be here no more
And if there's something on your mind
There's never been a better time
To tell me

Do you love me
Still wanting me
Like I need you, oh

There came a crossing on the road
If only there were signs to show me
Which direction I should go
I live my life with no regrets
It hasn't caught up on me yet
But I never knew I was losing you
I was losing you

I wonder as you walk through the door
Are you gonna hurt me some more
Never took you for the kind
Who would play up on my mind

Tell me what are you looking for
I can't play your games anymore
And when there's something on my mind
I will always find the time
To tell you

I still love you
Still wanting you
How I need you, oh

It's not for the first time
That someone else has hurt me
By faking it too long
Where did we go wrong, yeah

There came a crossing on the road
If only there were signs to show me
Which direction I should go
I live my life with no regrets
It hasn't caught up on me yet
Well I never knew I was losing you
Losing you


CENA 01

Gail abriu seus olhos lentamente. A claridade obrigou-a a fechá-los quase que instantaneamente, em um reflexo dolorido. Com grande esforço, ela conseguiu se acostumar à luz branca que cegava. Apesar dos olhos abertos, ela não tinha certeza nenhuma do que via. Estava tudo tão branco... a cabeça doía muito e ela não se lembrava de onde estava. Tentou olhar para os lados, mas alguma coisa a impedia de mover o pescoço. Parou para pensar o que estava havendo... ela não se lembrava de muita coisa. Pelo menos, achava que não se lembrava. Pensou que poderia estar em casa, mas casa tornou-se um conceito muito abstrato em sua mente. Ela deveria estar aonde? O que lhe tinha acontecido para estar sentindo tantas dores? Ou para não conseguir se mover?

Forçou a voz, mas nada saiu de sua boca. Na verdade, ela sentia como se também estivesse impedida de falar, por uma força que não era sua. Começou a testar movimentos, mas nada parecia controlado por sua vontade. Até notar que conseguia mover as mãos... e do movimento das mãos passou ao dos braços. Conseguiu vagarosamente fazer com que a mão direita chegasse até o rosto. Gail mal conseguiu tocar sua pele, mas havia alguma coisa nela. Pareciam tubos plásticos. Por que haveria tubos nela, não soube. Parou novamente para pensar. Alguma coisa estranha tinha acontecido... ela estaria em um hospital.
Enquanto Gail se esforçava para obter as respostas das suas próprias perguntas, notou a presença de alguém. Um vulto, um movimento que lhe fez perceber que não estava mais sozinha naquele lugar. Piscou os olhos... ela queria chamar aquela pessoa. Ela queria falar com ela, mas nada de voz, nada de conseguir se expressar. Sentiu-se desapontada consigo mesma. Fechou os olhos, desanimada de tão imprestável que estava. Afinal, onde ela estaria, quem estaria com ela, por que estaria cheia de tubos e por que não conseguia se lembrar de faces de pessoas conhecidas que ela gostaria de lembrar? Como seu pai, sua mãe, a família, os amigos? Parecia que ninguém existia em sua vida, ela não conseguia visualizar ninguém.

Assustou-se com o toque de alguma coisa em sua pele. Era a pessoa que estava com ela... abriu os olhos instintivamente e pode ver que era um homem. Um homem bonito... mas ela não sabia quem era ele. Tinha cabelos escuros e olhos castanho esverdeados. Mas ela não... não o conhecia. Por mais engraçado que parecesse, o homem se assustou mais com Gail do que ela com ele. Sua expressão foi de total espanto quando notou que ela tinha os olhos abertos e olhava fixamente para ele. Talvez espanto nem seja a palavra certa, o homem pareceu nem acreditar no que tinha visto.

“Deus do céu!” Uma mulher que estava no quarto gritou, no mesmo momento em que se afastou de Gail como se eu estivesse com algum mal contagioso e gravíssimo. Poderia estar... ela não saberia. “Martha! Martha! Pelo amor de Deus, alguém vem aqui! Martha!”
Gail ignorava quem era Martha. Mas ficou esperando para saber até onde aquela maluquice iria. Em uma fração de segundos, o lugar foi invadido por barulho, um barulho que ela imaginava ainda não ter ouvido. Pessoas falavam ao mesmo tempo. Muitas pessoas... a cabeça de Gail começou a doer, ficou zonza por alguns instantes. Não identificou nenhuma voz conhecida, nem sabia se alguém ali era conhecido.
“Impossível ela ter acordado assim... depois de tanto tempo!” Uma voz feminina falou.
“Mas ela acordou... vá lá conferir! Ela estava olhando para mim, como uma assombração!”
Gail ficou magoada em ter sido comparada com um fantasma. Teve vontade de levantar e mandar todos calarem a boca. No seu campo de visão surgiu uma mulher gorda, cara redonda, vestida de branco.
“Santa Maria... ela está mesmo acordada!”
Outra mulher olhou por cima da primeira, talvez querendo conferir que Gail estava mesmo de volta.
“Meu São José... ela acordou!. Acordou mesmo! Vá logo chamar o Dr. Morgan, mulher! Vá logo!”

Ou Gail estava em um convento, ou todos ali tinham resolvido invocar os santos. Era meio óbvio que ela estava acordada, não entendia por que aquilo parecia tão fantástico. Por que estavam todos tão apavorados com uma coisa aparentemente tão simples? Sua cabeça não parava de doer, então resolveu fechar os olhos novamente, tentar dormir e acordar de novo, para ter certeza que nada daquilo era um pesadelo. Antes de conseguir, sentiu uma moleza lhe dominar, uma força incontrolável que a fez apagar, como se tivesse sido nocauteada.
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Tatiana
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[ *  *  * ]
CENA 02

Gail acordou novamente sem saber quanto tempo depois, totalmente grogue. Havia mais pessoas no quarto, pode ver que não eram as mesmas que estavam antes. O ruído do respirador estava insuportável, mas ela conseguia ouvir o que estavam conversando.

“Não quero que ninguém saiba, e ponto final.” Uma voz rouca de homem falava, com tom autoritário. “Não podemos ter publicidade em um caso como esse... ainda mais com esse cara rondando o hospital como um mau agouro.”
“Tudo bem, mas você sabe que não depende de mim. Se a informação vazar... estamos em um grande hospital, muitas pessoas podem reconhecê-la!”
Daquela vez, a voz era feminina, mas Gail não conseguia saber de quem estavam falando.
“Pode acontecer, mas vou conversar com o diretor. Farei uma grande doação para esse lugarzinho se todos ficarem de boca fechada.”
“Sua arrogância ainda vai lhe custar caro, Albert... desça do pedestal quando precisar das pessoas.”
“Não seja melodramática, Stephanie. Sei o que estou fazendo... e quando Gail estiver boa novamente vou levá-la para um lugar mais sossegado, por bastante tempo.”
“E acha que ela vai concordar? Albert... ela já fugiu uma vez, pode fugir quantas outras quiser.”
“Ela não fugirá novamente. Não enquanto tivermos garantido aquele frangote. Enquanto ele estiver longe dela, e enquanto tivermos ajuda do lado dele, ela não fugirá.”

Gail ficou extremamente assustada com aquela conversa, e abriu os olhos repentinamente. Quis que notassem que estava presente, para que lhe esclarecessem que assunto era aquele, quem era Gail e o que ela havia feito de tão terrível. Quis saber quem eram aquelas duas pessoas que ali estavam, falando como se ela nem existisse. Levantou os braços e levou as mãos à face, querendo confirmar se aqueles tubos ainda estavam no mesmo lugar. Infelizmente, sim. Mas seus movimentos fizeram com que o homem notasse que ela havia acordado. Imediatamente ela interrompeu a conversa e dirigiu-se até Gail.
“Vejam só... minha doce Gail!”

Gail franziu as sombrancelhas, nervosa. Então o homem a tinha chamado de Gail? Ela não se lembrava de chamar-se Gail. Na verdade, nem se lembrava que tinha nome. Aquela conversa toda, era dela que estavam falando. Aquele homem lindo que havia visto antes... onde estava? Ela ainda podia ver seus olhos castanhos, ainda podia ouvir sua voz ecoando em sua cabeça. Onde ele estava?
O homem que era Albert levou a mão até Gail, querendo tocá-la. Sentiu um desejo terrível de repeli-lo, e afastou-o de si como quem afasta um animal. Colocou as mãos nos tubos e puxou com toda a sua força, desmontando tudo. Sentiu uma dor terrível quando eles saíram de dentro de si, como se ela estivesse também arrancando parte do seu corpo. Mas tirou tudo que tinha al alcance das mãos. Aquela atitude assustou as duas pessoas presentes, que ela já tinha entendido como um quarto de hospital. Ouviu o ‘bip’ do monitor cardíaco, avisando que ele tinha sido desconectado, ou que a pessoa tinha morrido. Sua respiração ficou difícil, mas nada de anormal aconteceu.

Logo, o quarto estava repleto de pessoas novamente. Todas assustadas com Gail. Ela estava sendo malvada... um monte de homens vestidos de branco, obviamente médicos, a cercaram, começaram a medir pressão, temperatura, um deles tentou se aproximar com novos tubos... Gail mostrou-se entediada. Precisava tomar uma atitude, e tomou.
“Será que todos poderiam me deixar em paz?”
A frase saiu toda de uma vez só. Gail ficou surpresa com sua capacidade... ficou orgulhosa. Antes ela tinha se sentido impotente, incapaz de se ajudar. Todos, sem exceção, ficaram mudos, olhando como se ela fosse a assombração que o homem lindo pensara. Pelo menos, o médico com os tubos se afastou.
“Gail... como você está se sentindo?” Um dos médicos tomou coragem para perguntar. Gail tentou fazer a voz sair novamente, mas foi muito difícil.
“Eu... estou bem. Eu... tenho dores... a cabeça. Quem são... todos? Onde eu... estou... o que... houve?”

Ela não se lembrava de muita coisa, mas tinha certeza que gostava muito de falar.
“É normal sua cabeça doer, você sofreu um trauma muito forte... não se lembra do que houve com você?”
“Acho que não.”
“Ora vamos, deixe de frescura!” O tal Albert entrou na frente do médico. Gail não o achou bonito... usava um cavanhaque esquisito e um cabelo ondulado nada agradável. “É claro que ela se lembra... está fazendo gênero, como sempre.”
“Senhor Donovan... acho melhor o senhor nos deixar a sós. É possível que, depois de um acidente tão grave, ela tenha amnésia pós-traumática. Isso acontece com mais da metade das pessoas... ela provavelmente não se lembra de nada desde instantes antes do ocorrido.
“Acho que... não... lembro nada.”
“Isso é totalmente absurdo!” O tal Albert insistiu. “Ela está nos fazendo de bestas, como sempre fez! É uma cobra!”
Gail arregalou os olhos. Pela primeira vez desde que tinha acordado, sentia-se realmente assustada com a presença daquela pessoa. O médico que conversava com ela arrastou Albert consigo e o fez sair do quarto, à força. Gail nem sabia que ele era... e disse que era uma cobra. A mulher que estava com ele também saiu. Gail sentiu um alívio estranho, como se o fato de aquelas duas pessoas estarem ali fosse uma coisa muito ruim para ela.
“Você não se lembra de nada mesmo? Digamos... da sua vida antes de acordar nesse hospital?”
O médico falava suavemente, e tinha olhos expressivos. Ele a deixava calma, talvez fosse essa a função dele, acalmar pacientes nervosos, pacientes fora do normal.

“Acho que... não. Meu nome... não sei. Esse homem... ele... quem é ele?”
“Seu pai, Albert Donovan. Ele é um empresário muito rico e influente no Texas... mas de vez em quando exagera na importância que considera ter.”
“Por que ele fala comigo desse jeito?” Gail não estava entendendo muito aquela história, mas queria que o médico falasse. Queria ouvir o que ele sabia, queria que ele lhe contasse o que ela não sabia.
“Bem... houve um problema entre vocês, que eu saiba envolvendo negócios de família. Foi um escândalo... parece que a senhora o denunciou para a polícia...”
Gail assustou-se mais uma vez. Ela denunciou o próprio pai... que vida complicada! Não, aquele médico deveria estar enganado, ela não poderia ser aquela tal Gail, não poderia ter brigado com a família, não poderia ter denunciado o pai à polícia! Não poderia... sentiu um súbito mal estar, como se começasse a cair em um precipício e nada pudesse lhe segurar, nada pudesse impedir sua queda. Seu coração disparou, e todos os médicos entraram em pânico para tentar mantê-la viva. Ela não sabia se queria ficar viva... e talvez estar sem memória fosse melhor do que lembrar de todas aquelas coisas estranhas que o médico havia lhe contado.

Perdeu os sentidos e só conseguia ouvir a voz daquele Albert dizendo que ela era uma cobra, ouvir o "bip" do monitor cardíaco. Pelo menos Gail podia ouvir alguma coisa... apesar de estar fora de si. Era como se tivesse saído do corpo e flutuasse sobre ele, ouvindo tudo e sentindo tudo, mas sem poder comunicar-se. Mas até o espírito perdeu a noção do tempo, e só voltou novamente trazido por uma canção melodiosa e linda. Uma canção... fazia muito tempo que ela não ouvia uma canção, talvez porque não se lembrasse de nenhuma.
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Tatiana
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CENA 03

Spend all your time waiting
for that second chance
for a break that would make it okay
there's always some reason
to feel not good enough
and it's hard at the end of the day
I need some distraction
oh beautiful release
memory seeps from my veins
let me be empty
oh weightless and maybe
I'll find some peace tonight


Abriu suavemente os olhos mais uma vez. Havia uma enfermeira consigo; Gail podia jurar que era uma das que chamava pelo nome dos Santos logo que acordou, e que estava com... aquele homem. Sua cabeça chacoalhava, parecia que estava em uma montanha russa. A música era tão gostosa... teve vontade de manter os olhos fechados.

“Onde... estou?” Perguntou. Gail sabia que a enfermeira não tinha notado que abrira os olhos, portanto a assustou. A mulher levantou-se, ficando de pé na direção dos seus olhos. Nem precisou de esforço para vê-la.
“Como, minha filha?”
“Onde... estou? Esse lugar... essa cidade... onde é?”
“Budapeste.”
“Onde é... Budapeste?”
“Não sabe?” A enfermeira espantou-se ainda mais.
“Não lembro... nada que... deveria lembrar.”
“Hum... então você não se lembra de Albert Donovan? Nem Stephanie Wilkins?????”
Se para Gail já estava ruim tentar decifrar o enigma que estava dentro de si, aquelas charadinhas eram o caos. Só lembrava do primeiro nome porque já o tinha ouvido antes... logo depois que acordou.
“Não.”

A mulher abriu um grande sorriso, como se aquele seu ‘não’ significasse uma coisa incrível, como se não se lembrar daquele pessoal fosse maravilhoso. Antes que ela pudesse perguntar alguma coisa para entender, a enfermeira saiu correndo do quarto, gritando pelos corredores. Imagina... aquilo era um hospital! Gail achou graça, pensando consigo mesma. E achava que as pessoas estavam mais piradas do que ela, pois insistiam em sair correndo feito loucas, sempre que ela falava alguma coisa. Principalmente as enfermeiras...
Sentia um enorme cansaço, e decidiu percorrer os olhos para reconhecer o quarto onde estava. Era um quarto todo branco, teve certeza que passaria a detestar branco depois que saísse dali. Janelas de madeira pintada, cortinas brancas, o chão era bege claro... Notou que o quarto era luxuoso, apesar de ser de hospital. Havia uns sofás bastante chiques, tudo muito bonito. Mas para Gail era indiferente, o que ela queria era sair logo daquele lugar.

so tired of the straight line
and everywhere you turn
there's vultures and thieves at your back
storm keeps on twisting
you keep on building the lie
that you make up for all that you lack
it don't make no difference
escape one last time
it's easier to believe in this sweet madness oh
this glorious sadness that brings me to my knees


Enquanto pensava, viajando no tempo e espaço para ver se alguma coisa preenchia o vazio de sua cabeça, o quarto foi novamente invadido, pela mesma mulher que saíra correndo e... por um homem de olhos azuis. Gail sentiu meu coração disparar quando o viu, como se... como se ele fizesse diferença. Mas ela não se lembrava dele! O homem se sentou ao seu lado, observando-a como se fosse um objeto raro. Quem raios era aquele cara?
“Gail... você está bem?” Ele falou. Uma voz suave... uma voz linda. Gail não sabia como, mas tinha certeza de já ter ouvido aquela voz antes.
“Não sei... não me sinto... exatamente bem. Quem é você? Seu nome... como é?”
“Disseram que você tinha amnésia, mas não achei que fosse verdade...” O semblante do homem era tristonho, como se minha amnésia realmente o afetasse.
“Isso te... incomoda?”
“Não exatamente... incomoda a todos.” Ele parecia desanimado. “Mas é melhor você com amnésia do que vegetando sobre esta cama de hospital. Só é uma pena você ter se esquecido... deixa pra lá.”
“Não... agora fale.”

“Eu pensei que minha música a faria acordar. Afinal, foi o que me disseram em Londres. Queria que você se lembrasse... de algumas coisas.”
Gail pensou que, ou ele tinha viajado muito, ou ela estava realmente no meio de pessoas mais malucas do que ela própria. Do que ele estava falando?
“Não... entendi.”
“Essa música que você ouve, ela toca desde que você foi encontrada inconsciente e os médicos disseram que você não acordaria mais. Pensei que ela poderia estimular seus sentidos, mas... não estimulou direito, eu acho.”
“Vai ou não me explicar... quem é você?”
Enquanto os dois tentavam conversar, pois todos insistiam em não responder às perguntas de Gail, outra pessoa entrou no quarto. Ela desejou que não fosse nenhum Albert, e de fato não era. Pelo menos Alguém estava ouvindo suas palavras...
“David... vim assim que soube que ela tinha acordado!” Uma mulher de cabelos lisos falou. “Como ela está? O pai já apareceu por aqui?”
“Ela está com amnésia. Não lembra de nada...”
“Nada? Nem de... de... Gail... não lembra mesmo da gente ou está fingindo para se livrar de alguma coisa?” A mulher quis saber.
“Será que vocês... poderiam me explicar o que... está havendo?” Falou, no tom mais alto de voz que conseguiu, tentando chamar a atenção.
“Viu o que você fez?” O homem resmungou. “Claro que ela está com amnésia!”
“Quem são vocês... afinal?”
“Eu sou David, e ela é... Valerie.”
“E?”
“E? E nada, sou sua amiga! Apesar de tudo, e estou preocupada com você!” A mulher sorriu.
“E ele?” Gail apontou para o loiro que sentava ao seu lado.
“Bem... ele é David. Por quê?”
“Nada...” Gail demonstrou desapontamento. Pensou que ele fosse a chave para algum mistério. Mas não era.
“David ficou com você todos os dias, até uma semana atrás, quando aquele seu pai louco resolveu expulsar todo mundo daqui.” Falou, desanimada, a tal Valerie.
“E... quanto tempo estou... aqui?”
Eles se entreolharam, e Gail suspeitou que a resposta não seria de seu agrado.
“Dez meses.” Falou David. Os olhos verdes penetravam tão fundo que Gail achou que pudesse se afogar naquele olhar. Piscou lentamente para tentar acordar.

in the arms of the angel
fly away from here
from this dark cold hotel room
and the endlessness that you fear
you are pulled from the wreckage
of your silent reverie
you're in the arms of the angel
may you find some comfort here


“E... o homem que estava comigo quando acordei?”
“Que homem?”
“Um de cabelos escuros e olhos castanhos... quase verdes.”
Gail pode sentir que suas palavras causaram um imenso mal estar nos dois presentes. Eles se entreolharam novamente, mas pareciam assustados.
“Não achamos que você conheça ninguém com essa descrição!” A mulher tentou explicar alguma coisa. “Tem certeza que viu alguém assim, aqui?”
“Sim, tenho...”
“Vou tirar isso a limpo.”
David levantou-se e saiu do quarto. Gail ficou com mais curiosidade do que já estava. Aquilo era irritante. Não saber nada e não ser informada de nada. Estava começando a deixá-la muito aborrecida.
“O que estão me escondendo?”
“Gail... na verdade, você tentou se suicidar. Por isso está internada aqui, não sabíamos nem se você acordaria do coma.”


you're in the arms of the angel
may you find some comfort here
some comfort here...
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Tatiana
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CENA 04

A conversa continuaria mais um momento, se a porta não tivesse aberto e o tal Albert entrado, com policiais e um circo todo armado, colocando a mulher Valerie para fora do quarto. Um barulho insuportável feriu os ouvidos de Gail, ela nunca poderia imaginar que alguém pudesse invadir um hospital e fazer tanta bagunça.
Gail estava lá, como um objeto disputado em uma guerra, sem memória e sem chances de defesa, enquanto todos pareciam se digladiar por sua causa. Que importância ela teria? Aquele Albert lhe amava tanto, ou se importava tanto assim com as aparências? Teve vontade de gritar, mandar que aquele homem saísse do seu quarto, mas não teve coragem. Inconscientemente, ele causava impacto e temor. Fechou os olhos e viu, nitidamente em sua frente, uma pessoa vestida de vermelho. Era uma mulher que lhe sorria. Foi apenas um flash... Gail nem sabia se era uma recordação. Mas guardou segredo.

O tal Albert voltou depois de se livrar dos policiais também. Daquela vez ele estava sem a tal Stephanie, que Gail nem imaginava quem era. Talvez fosse a amante dele... sua mãe não poderia ser.
“Albert... Albert Donovan. O que você... quer comigo?” Sentiu que a voz melhorava.
O homem franziu uma sombrancelha para poder olhar Gail. Que olhar arrogante... como poderia ela ser filha daquilo?
“Oh, minha princesinha resolveu se lembrar de mim?” Ele se aproximou.
“Não que eu saiba.” Tentou ser irônica. Talvez fosse boa nisso. “Apenas não entendo... suas intenções.”
“Não tenho intenções. Sou seu pai, quero o melhor para você.”
“Mas... soube que eu fugi de casa.”
Albert ficou vermelho como uma pimenta fresca, mas conteve o impulso de explodir. Aquele assunto certamente o irritava, e muito.
“Quem já esteve aqui enchendo sua cabeça com essas mentiras?”
“São mentiras?”
“Claro que são!”
“E qual o seu interesse em mim?”
“Você foi prometida a Kyle de Goale, filho do magnata do petróleo. Vai casar-se com ele, e vamos unir nossas fortunas.”
Gail ficou ainda mais confusa. Já não se lembrava de nada, e ainda vinha aquela conversa esquisita. Começou a achar que sua vida era um pouco mais complicada do que ia querer recordar-se.
“Ninguém me disse nada, eu que supus.” Mentiu.
“Cuidado com suas suposições, ou vou acabar acreditando que você não tem amnésia.”

Realmente, aquele homem a assustava. Assustava tanto que Gail preferiu ficar em silêncio, então. Mas foi um longo silêncio. Foi um silêncio de dias, dias que ela sequer pode contar. Ninguém apareceu para vê-la, nem as enfermeiras nem os médicos. Ela poderia morrer e ninguém saberia. Seria essa a intenção daquele tal Albert? Matar-lhe? Não parecia.

Apesar de tudo, o que mais a incomodava não era estar ali sozinha, não era o sumiço dos médicos, nem a ausência daquele monstro Albert. Tudo aquilo nem seria problema, ela me sentia bem... e ele não iria conseguir mata-la daquela forma, ela já tinha sofrido coisa pior e ficado viva. Muito viva. Também não era a amnésia que lhe fazia sofrer, talvez fosse melhor mesmo esquecer as coisas estranhas que já vivera, tinha certeza que já vivera momentos bastante desagradáveis. Havia alguma coisa lhe consumindo, e Gail não sabia o que era. Podia ter certeza do que não era, mas não imaginava o que poderia ser. Mas, fosse o que fosse, causava uma dor maior do que os ferimentos.
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Tatiana
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CENA 05

Os dez meses que passara dormindo não seriam comparáveis com o vazio dos poucos dias que passou praticamente incomunicável. Ela não lembrava, mas existia alguma coisa muito sórdida para aquele Albert querer casá-la com alguém que ela achava nem conhecer direito.

Já entediada de ficar olhando para o teto branco, esforçou-se um pouco e sentou na cama. Será que achavam que podia sentar? Ela pensou, radiante. Não tinha mais os tubos na face, mas havia aparelhos ligados em si para todos os lados. Não sentiu mais necessidade do monitor cardíaco, arrancou-o e jogou de lado. Não teve coragem de tirar o soro no início, era por ali que deveria tomar medicamentos... mas lembrou-se de que também poderiam lhe dar soníferos. Então, também arrancou. Não queria mais ficar ali, muito menos como se estivesse pior do que realmente estava. Gail não se sentia tão mal. Testou movimento por movimento do seu corpo, e nada parecia estar faltando. A não ser um pouco de cabelo, que notou ao levar as mãos à cabeça. Sim, ela tinha sofrido um trauma na cabeça, fez cirurgias, rasparam sua cabeça e não deixaram que o cabelo crescesse normalmente para não atrapalhar a cicatrização.

Depois de se livrar de tudo que considerou inútil, ficou sozinha com a cama. E, como a cama também não lhe parecia tão útil assim, levantou-se para arriscar uma caminhada. Se suas pernas ainda se lembrassem de como caminhar, estava bom. Também testou a porta, e estava totalmente aberta, sem nenhum capanga de Albert a vigiando. Realmente, ninguém acreditaria que ela conseguiria se levantar, Gail parecia um... vegetal. Seus olhos exploraram o corredor como uma novidade incrível, até conseguir avistar algumas enfermeiras sentadas atrás de um balcão. Foi lentamente até elas, tentando se apoiar nas paredes para não perder o equilíbrio. Quando uma delas a viu, foi como se tivesse visto uma miragem, e nem deu importância. Só quando disse "oi" compreenderam que não era uma fantasia, e olharam para Gail novamente assustadas. Ou ela estava muito feia ou era realmente um milagre estar acordada.

“Gail!” Uma enfermeira exclamou, indo em sua direção e tocando nela. Talvez quisesse confirmar que não era uma visão ou um fantasma.
“Como... como você saiu do quarto?” Outra perguntou.
“Pela porta...”
“Sim, mas... andando? E os aparelhos, e os vigias do seu pai?”
“Acho que pensaram a mesma coisa que vocês... que eu não era... capaz. Estava sozinha há muito tempo... precisava saber o que estava acontecendo.”
Eram quatro enfermeiras. Elas se entreolharam e convidaram Gail para ir a outro lugar. Depois ela entendeu que elas queriam lhe esconder, tirar do corredor para que ninguém a visse ali. Como ela estava me sentindo um pouco tonta, resolveu aceitar o convite e foi com elas até outra ala do hospital. Parecia uma enfermaria... camas todas juntas, pessoas aparentemente mais pobres, que não tinham grandes condições financeiras de pagar pelo atendimento médico. Lá, foi colocada em uma cama, que era mais confortável que a anterior.
“E agora, o que fazemos?” Uma enfermeira negra falou bem baixinho para as outras duas. Apenas três a acompanhavam.
“Não sei... acho que devemos chamar o Sr. Miller.”
“Sim, mas com muita cautela. Temos que tomar cuidado, ou o Sr. Donovan descobre que a estamos ajudando.”
“Não vamos ligar, uma de nós vai até a casa dele...”
As três conversavam como se Gail não estivesse ali, ou como se estivesse totalmente a par do que acontecia.
“Desculpem... mas... poderiam me explicar o que está havendo?”
“Oh... desculpe-nos, Gail! Nem lembramos que você está aqui com amnésia... pobrezinha! Estamos querendo entrar em contato com alguém, para que venha te buscar e te livrar daquele homem horroroso!”
“Meu pai?”
“As três balançaram a cabeça positivamente.”
“Não chame aquela coisa de pai!”
“Aquele monstro!”
“Ser desprezível!”
“Pessoa horrorosa!”
“Não entendo... não lembro. Também não gosto dele... mas não lembro por que.”
“Vamos chamar o Sr. Miller. Assim que ele vier, vai poder explicar tudo para você.”

Mais uma vez, deixaram Gail sozinha. Mas ela não sentia o lugar tão assustador... talvez porque ninguém soubesse que ela estava ali, somente as enfermeiras meio malucas. Fechou os olhos lentamente e imaginou o que pensariam os capangas do tal Donovan quando não a encontrassem. Poderiam pensar que estava morta... não importaria. Queria que lhe deixassem realmente em paz, a única pessoa que eu queria ver era... ela não queria ver ninguém. Tinha um vazio tão grande, tanto na cabeça quanto no coração. Lembrou-se da canção que ouvia sempre... era a canção que David tinha colocado para lhe despertar. Tão doce... Ela quis saber por que ele a queria acordada, e seu pai parecia que não.

Enquanto sonhava, delirava, sentiu meu corpo flutuar sobre o leito. Estava tão leve, tão suave... "in the arms of the Angel...", ela ouvia ecoar em seu pensamento, como se tudo aquilo fosse real, como se alguém lhe fizesse voar e a levasse para um lugar melhor. Como se Gail realmente conseguisse paz.
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Tatiana
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CENA 06

Seus olhos novamente abriram e ela literalmente caiu do transe em que se encontrava quando vozes invadiram a enfermaria. Havia outras pessoas ali, mas estava silêncio. Deveria manter-se silêncio, era um hospital... Gail não podia mais ouvir a música que a embalava e aquilo praticamente a deixou irritada. Não lembrava direito o que seria ficar irritada...

Uma mulher aproximou-se com alguns equipamentos, Gail imaginou logo que ela pretendia enche-la de máquinas novamente. E não iria permitir, estava farta daqueles aparelhos.
“Bom... dia?” Arriscou falar alguma coisa. Aquela enfermeira não era nenhuma das que já tinha visto no outro quarto.
“É boa noite.” Respondeu, não muito interessada em conversar. “Vim aqui recolocar o soro e os monitores.”
“Não quero monitores.”
“Não quer?” A enfermeira debochou. Era uma mulher antipática... se Gail já estava interessada em ficar sem monitores, ela era uma razão a mais.
“Não. Estou bem o suficiente para retirar todos os aparelhos ligados em mim e caminhar pelo hospital, então acho que posso não querer essas coisas grudadas em mim.”

A mulher olhou com desdém e retirou-se, da mesma forma que apareceu. Gail ficou divagando e imaginando para onde teriam ido as pessoas simpáticas do hospital. Aquela enfermeira parecia discípula do seu... pai. Palavra estranhamente insuportável, aquela.

Enquanto olhava para o teto, temendo sair dali e se perder, ou ser encontrada por alguém que não queria encontrar, a música recomeçou. Era uma música diferente da que estava acostumada a ouvir. Bem, aquele era mesmo um hospital diferente, Gail tinha certeza que hospitais gostavam de silêncio. Pode ver David chegando, trazendo flores.
Não conseguiu emitir um som sequer, estava travada olhando para um dos homens mais belos do mundo, se ela se recordasse de outros. Ele vestia preto, e nunca preto caiu tão bem em alguém.
“Gail... como se sente hoje?” Ele perguntou, segurando sua mão esquerda e beijando-a, suavemente.
“Eu... quero dizer... eu... estou bem?”
“Isso foi uma afirmação?”
Ele sorria, e seu sorriso a deixou ainda mais... tonta.
“Não sei... como você está?”
“Estou com saudades. Desculpe, sei que você não se lembra, mas vai entender por que, um dia.”
“Entender o que?”

“O que existe entre nós.” Ele aproximou-se do ouvido de Gail, quase encostando os lábios em sua pele. Ela podia sentir seu hálito quente, sentir um tremor estranho lhe invadindo e dominando os sentidos. “Mas estou com saudades do seu sorriso... do seu beijo... do seu toque.”
Gail encolheu-se, assustada, quando ele finalizou a frase. Foi para a cabeceira da cama como um animal acuado, com medo de si mesma e das coisas que estava pensando naquele momento. Sentiu-se tão... impura. David entendeu que alguma coisa tinha mexido com Gail, e afastou-se, sentando em uma cadeira ao lado da cama.

“Desculpe.” Foi o que ela pode dizer quando recuperou a sanidade.
“Não tem problema, Gail. Esperei tanto tempo para que você acordasse, agora qualquer tempo é pequeno. Estive com o médico quando cheguei, ele disse que você provavelmente terá alta logo.”
“Alta?” Gail deitou-se novamente, mais relaxada. “Mas eu... eu tenho para... onde ir?”
“Claro que tem... ainda tem sua casa.”
“E onde é minha casa?”
“Bem... o médico disse para não ficarmos te enchendo de informações. Mas você tem uma casa em Budapeste mesmo...”
“David... o que existe entre nós?” Gail mudou de assunto.
“Existia...”
“O que? Alguém tem que me... contar.”
“Tivemos um caso.”
“Um caso?” Gail parecia boba. Repetia as palavras de David, repetia as informações que adquiria como se fossem demais para ela acreditar.
“Sim. Nos conhecemos quando estive na cidade, por alguns dias... e entre nós surgiu um magnetismo. Você chamava de estática. Não durou muito, logo você pirou. Pouco tempo depois, desapareceu e foi encontrada aqui, quase morta.”
Dos olhos de Gail vertiam lágrimas, de uma origem que ela desconhecia. Não sabia se era tristeza ou alegria o sentimento que comprimia seu coração. Ela tinha um caso! Ou tivera, não sabia como iam seus sentimentos até o momento do acidente. Ou tentativa de suicídio. E tinha um pai completamente louco, que queria casá-la com algum herdeiro. Parecia enredo de filme.
“Por quanto tempo, David... ficamos juntos?”
“Seis meses. Acho que foi isso, uns seis meses.”
“Nossa... e... o que aconteceu depois?”
“Bem... eu acho que sempre achei que tudo acabar. Não me importei, no início foi apenas sexo. Mas...”
“Só sexo?” Gail interrompeu e sentou-se na cama, horrorizada. “Eu devia ser uma pessoa desprezível!”
“Não... você nunca foi desprezível. Eu sempre te achei fantástica.”
Gail sorriu, e um silêncio repentino pairou no ar, mais uma vez. Ela não tinha nada a dizer, e David tinha receio do que queria perguntar, desde a primeira vez. Desde que chegara lá e a vira acordada, ele precisava saber. Ele tinha quase certeza, mas tinha que perguntar.

“Gail... ninguém sabe do nosso caso. Só Valerie” David pareceu querer fazer Gail entender da necessidade de manter o assunto em sigilo.
“Está tudo bem... não vou contar a ninguém. Até porque não tenho ninguém para contar nada. E agora... parece que tenho um noivo, um tal de Kyle...”
Gail desabou em um choro profundo. Talvez fosse aquele não saber que a machucava por dentro. Sim, parecia uma vida complicada, a dela. David segurou novamente suas mãos e começou a cantarolar uma canção linda. Sua voz era como a de um anjo. Gail teve tanta vontade de se lembrar dele, de alguma coisa do que ele dizia. Seria tão bom... lembrar-se apenas do que fosse interessante, lembrar-se do que lhe fazia bem antes.
“Por que você sempre canta? Sempre tem música?” Ameaçou chorar mais, mas David selou seus lábios com os dedos.

“Shh... não quero que você chore. Eu canto porque você sempre gostou de me ouvir cantar. Dizia que preferia morrer ouvindo esta música do que viver sem ouvi-la de novo. Se quiser, eu paro de cantar e tocar.”
“Não. Eu... eu quero as músicas, elas me... fazem bem.”
Por um momento, David aproximou-se da cama, acariciando os cabelos de Gail. Seus olhos perderam-se nos dele, por um momento não houve tempo nenhum. Foi como se tudo tivesse parado. Se ficassem ali a noite inteira, quando conseguissem desvencilhar-se ainda seria noite. Gail quis incontrolavelmente sentir seu toque. Quis sentir sua pele em contato com a dela. Ela não se lembrava de nada que já tinha vivido, mas desejou aquele homem de uma forma tão assustadora que não lhe dava controle de nada. ‘Estática’, ela pensou.

Pode sentir lábios de David tocando sua face, lábios fartos, quentes, macios. Ele beijou sua testa, seu nariz, sua bochecha, seu queixo... seu coração batia tão acelerado que pensou que ele fosse pular para fora do peito, ou que fosse parar. O cheiro de David deixou Gail totalmente embriagada, era como se fosse uma bebida alcoólica muito forte. Fechou os olhos, no momento em que sentiu seus lábios tocando os dela. Senti-lo daquela forma a deixou ainda mais insana. Segurou em seu pescoço e o usou como apoio para sentar-se na cama. Queria ficar mais perto... de seu corpo. David segurou-a pelas costas e a beijou mais. Um beijo molhado, quente, tímido. Ela não sentia que seria capaz... mas quis ardentemente beijar também. Um ruído estridente interrompeu o momento e fez o tempo andar novamente.

David afastou-se, daquela vez ele assustado. Era seu celular... ele atendeu, nervoso. Seus dedos quase não conseguiram apertar a tecla para ligar o telefone.
“Fala.” Ele tentou respirar fundo, depois de identificar o número.
Gail não conseguia ouvir o que se falava, mas David não conseguia tirar os olhos dela.
“Não... eu estou indo... Claro que estou no hospital com Gail, por que? Ta bom... estou indo!”
David respirou novamente, como se a conversa tivesse sido chata demais. Seus olhos ainda estavam assustados quando ele se aproximou de novo.
“Preciso ir, Gail... desculpe. Vou tentar me controlar da próxima vez, ok? Desculpe...”

Da mesma forma abrupta que entrou, David saiu da enfermaria, deixando um rastro enorme atrás de si. Um rastro... Gail estava dopada, um efeito muito mais forte do que os medicamentos que lhe davam. Seu corpo flutuava sobre a cama, poderia voar por todo o hospital, poderia deixar aquele lugar miserável. Sentia-se tão leve... e ao mesmo tempo tão nervosa e apreensiva. O que tinha feito, o que estava sentindo, seja o que fosse que a fizera desejar aquele homem antes estava fazendo o mesmo de novo, e ela nem sabia por que ou como.

Cos everytime I seem to fall in love
Crash! Boom! Bang!
I find the heart but then I hit the wall
Crash! Boom! Bang!
That's the call, that's the game and the pain stays the same.
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CENA 07

“Você ainda vai colocar tudo a perder!” A mulher disse, escondida entre as sombras escuras da noite Romena. Ela estava em um cais, já passava das dez horas.
“Não vou, deixe comigo. Nada vai acontecer que estrague seus planos.” O homem justificou-se. Ele tinha uma bebida nas mãos.
“Nossos planos!” A mulher protestou.
“Nunca foi meu plano ela se casar com ninguém... era para ficar comigo.”
“Sem choradeira agora... o pai insiste que ela se case. Ele diz que é bom negócio para ele, e, de certa forma, precisamos dele.”
“Não sei por quê. Ele não acrescenta nada na história, só faz confusão.”
“Faz parecermos bonzinhos.”
“Não sei, mas não estou gostando deste teatrinho. Ela pode recuperar a memória...”
“Então faça com que ela se apaixone por você o mais rápido possível.”
A mulher deu as costas para o homem e deixou o cais. Ele ficou lá, observando a lua e terminando seu drinque.


Do you know where you're going to?
Do you like the things that life is showing you?
Where are you going to? Do you know?
Do you get what you're hoping for,
When you look behind you there’s no open doors?
What are you hoping for? Do you know?
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CENA 08

Urs Bühler sentou-se na varanda com uma foto em suas mãos e ficou ali, observando a imagem, por alguns instantes. Ele havia acabado de sair do banho, e Valerie, a segunda esposa, não estava em casa. Os filhos também não, sua mãe os havia levado. Urs não sabia por que a mãe decidira ficar com os netos naquela tarde, mas ele precisava mesmo de um momento sozinho. Andava confuso, e precisava pensar, refletir sobre algumas coisas. Nada que ele pudesse fazer com duas crianças e uma esposa querendo atenção.


Here I am, playing with those memories again
And just when I thought time had set me free
Those thoughts of you keep taunting me
Holding you, a feeling I never out grew
Though each and every part of me has tried
Only you can fill that space inside



Os cabelos molhados pingaram sobre a fotografia. Urs tratou de limpar a água com a manga do roupão que vestia. Lá estava a imagem de uma mulher sorrindo, usando uma faixa amarrada na cabeça e uma camiseta branca. Era a mulher mais linda do mundo, mas Urs não podia ficar pensando nela daquele jeito. Não outra vez, não de novo. Tudo contra o que ele lutou para superar estava voltando, como se o passado caísse sobre sua cabeça e o sufocasse.
Lembrou-se da primeira vez que a viu, em um hotel na Malásia. Tudo parecia dar errado, mas ela estava lá para fazer as coisas parecerem ainda mais estranhas. Depois, lembrou-se da primeira vez em que a beijou. No estúdio, durante uma gravação. Urs estava completamente enlouquecido, sua sanidade mental estava abaladíssima. Aquela mulher o deixara sem noção. Sem condição de usar a razão. Ele sentia por ela uma coisa inexplicável. Foi assim quando fez amor com ela pela primeira vez, no chão, sobre as almofadas de Sébastien.

Casar-se com ela foi a coisa mais lógica que Urs fez em anos. Era tudo que ele queria, e somente no que ele pensava. Tinha certeza de que o amor deles não tinha defeitos, não podia errar nunca. Mas ele errou. Gail ficava sempre lá, na platéia, sempre fã, sempre presente. Ela estava com ele sempre. Para o que desse e viesse. Era sua companhia. Sua amante. Logo, tornou-se a mãe de sua filha. A criança mais maravilhosa que Urs já vira.

Mas nada daquilo bastou para Urs. Ele não conseguiu fazer a coisa certa, nem mesmo quando a coisa certa parecia tão óbvia em sua frente. E ele foi procurado por Valerie diversas vezes, e em uma delas ele cedeu. Urs fez com Gail exatamente a mesma coisa que fizera com Valerie. Aquilo que David e Sébastien tanto o incentivaram a fazer antes. Trair. E Urs gostou de trair, parecia interessante ter a esposa dedicada em casa e a amante. Gail tornou-se a esposa dedicada, coisa que ela nunca pensou em ser. Mas Urs não estava muito preocupado com o que ela queria ser na relação, apenas fez com que as coisas ficassem como ficaram. Ele se sentia atraído por Valerie, sempre fora atraído pode ela.


So there's no sense pretending
My heart is not mending
Just when I thought I was over you
And just when I thought I could stand on my own
Oh baby those memories come crashing through
And I just can't
Go on without, you



Mas a amante apareceu grávida. Valerie, frágil e sensível, engravidou. Urs escondeu a verdade de Gail, mas não conseguiu livrar-se de Valerie. Ela o queria para si, e não aceitaria ser preterida novamente. Usou o futuro filho como isca para atrair Urs, até que ele deixou a esposa para ficar com ela, definitivamente. Ainda não estavam casados, mas esperavam apenas o prazo se cumprir para o casamento se realizar. Valerie esperava. Urs não tinha mais tanta certeza do que esperar.

Seus olhos miraram o horizonte e admiraram o por do sol por alguns instantes. Ele estivera com a polícia nas buscas durante todo o tempo. Teve o cuidado de estar lá quando ninguém mais estivesse. Estava lá exatamente quando Albert Donovan apareceu pela primeira vez. Urs descobriu, então, a verdade sobre Gail. Ela não era uma estudante de direito que morava em um hotel em Belfast. Era a milionária herdeira de um império nos Estados Unidos, e fugira do pai algum tempo antes de se conhecerem. Urs ouviu a versão de Donovan, de que Gail era prometida para outro herdeiro, com a intenção da união de duas fortunas. Urs não conseguiu contabilizar quantos milhões foram citados por Albert Donovan, mas sabia que ele não tinha nem teria tanto dinheiro.

Não pensou que Gail se importasse com o dinheiro do pai, mas entendeu que ele comprava tudo o que queria. Poderia comprar a liberdade da filha. Poderia comprar qualquer coisa. Albert Donovan ficou profundamente irritado quando Urs lhe contou sobre Kirsten e Dylan. Ficou ainda mais irritado quando foram canceladas as buscas e Gail foi dada, definitivamente, como desaparecida.
Urs não teve coragem, mas Valerie entrou com o pedido judicial para que Gail fosse declarada morta, e ela pudesse se casar com Urs. Assim que saísse a decisão, e o prazo estabelecido pela justiça fosse cumprido, Urs estaria novamente livre.


On my own, I tried to make the best of it alone
I've done everything I can to ease the pain
But only you can stop the rain
I just can't live without you
I miss everything about you
Just when I thought I was over you
And just when I thought I could stand on my own
Oh baby those memories come crashing through
And I just can't
Go on without, you
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[ *  *  * ]
CENA 09

Gail precisava sair logo daquele hospital, antes que enlouquecesse. Mas jurou para si mesma que teria paciência. Apesar de todo mundo parecer menos normal do que ela, teria paciência. Ficou sozinha por mais algum tempo, apesar de o conceito de tempo não ser o mesmo para ela e para as outras pessoas. Sentia-se muito melhor, e não gostava de ficar deitada. Mas ficava, como se desanimada, como se infeliz. Ela não estava infeliz porque não podia estar, mas também sabia que aquilo que sentia não era felicidade.

Pensou em David, o tempo todo. Ele aparecia e desaparecia da sua frente, como se ela pudesse controlar aquilo. Sorria ao pensar nele, e pensar nele era a única coisa que lhe restava de agradável. Mas novamente o homem de olhos esverdeados surgiu ao seu lado, lhe acariciando a face.
“Tudo vai ficar bem, Gail.” Ele disse. Gail assustou-se, olhava para ele fixamente, sem acreditar.
“Quem é você? Você é real?”
“Claro que não sou real. Tudo vai ficar bem, confie em você. Confie no nosso amor. Eu te amo, sempre te amei.”
Gail piscou algumas vezes, e o homem saiu pela porta do quarto. Ela sentiu seu coração disparar. Não achava que aquele fosse Kyle, seu prometido. Tinha certeza que não sentia nada por aquele Kyle. E não fazia idéia de quem seria aquela assombração.
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[ *  *  * ]
CENA 10

O telefone de Albert Donovan tocou insistentes vezes, mas ele recusou-se a atender. Era Pierre de Goale, obviamente querendo tratar do casamento de seus filhos. Albert estava sentado em seu escritório no Texas, olhando diretamente para seu império, através de uma parede de vidro translúcido. Não podia entender como Gail preferira fugir e deixar tudo aquilo para trás. Sua única filha, desinteressada em ser a herdeira de bilhões de dólares.

Mas Albert não poderia aceitar aquilo. Muito antes de Gail pensar em andar ele já a prometera para Pierre, um conhecido de longa data. Pierre de Goale fora para os Estados Unidos e lá prosperou. Nascido na África do Sul, o homem tinha faro para bons investimentos. Era dono de diversas companhias petrolíferas, e distribuía seu ouro negro pelo país do Tio Sam. Albert Donovan precisava unir-se àquele homem, precisava unir seu patrimônio ao dele. E nenhuma forma melhor do que o casamento de seus filhos, praticamente da mesma idade.

Os pensamentos lhe fizeram alterar-se, e Albert Donovan nem percebeu que quebrava sua caneta entre os dedos, deixando que a tinta manchasse sua calça.
“Maldita!” Pensou em Gail.
A secretária, alheia aos acontecimentos, entrou sala adentro levando alguns papéis para que fossem assinados. Albert Donovan tentou recompor-se, mas nada o faria sentir-se melhor. Estava com tanto ódio de Gail e daquele homem com quem se casara que poderia matá-los.
O telefone tocou outras vezes e Donovan decidiu atender.
“Está me evitando, Donovan?” Pierre sequer disse o tradicional ‘alô’.
“Claro que não... o que lhe faz pensar esse absurdo?”
“O fato de sua filha ter sumido há anos, e de você não conseguir encontrá-la.”
“Eu nunca escondi isso de você, Pierre. Como está Kyle? E sua esposa?”
“Não me venha com essa conversa. Estou com problemas, precisamos casar logo nossos filhos.”
“O que está acontecendo?” Donovan empertigou-se na cadeira. Problemas era tudo que ele tinha desde que Gail desaparecera do mapa.
“Kyle caiu de amores por uma mestiça. Está querendo casar-se com ela. Não tenho como impedir se a mulher prometida para ele sumiu.”
“Não me diga um absurdo desses!” Donovan alterou-se novamente. “Pierre, eu encontrei Gail. Ela está com amnésia, sofreu um acidente. Na verdade, foi acidentada... é uma história que um dia te conto. Por isso não conseguiu voltar para casa... vamos marcar um encontro entre ela e Kyle. Vamos... ela está na Romênia, vamos mandar o menino para lá.”
“Não me parece uma boa idéia. Não sei se confio ainda em você, e... Romênia?”
“Claro que confia. Vamos... é só um encontro. Tenho certeza que se filho conseguirá fazer Gail apaixonar-se por ele.”
Pierre de Goale sorriu do outro lado da linha, pensando no filho como um garanhão, um reprodutor premiado que lhe daria muitos netos.
“Não tenha dúvida disso. Meu Kyle é um terror. Ok, vamos marcar esse encontro. Diga onde está sua filha e mando Kyle falar com ela.”
“Vou providenciar o endereço dela na Romênia e já te envio por fax.”

Albert Donovan desligou o telefone com a cabeça pegando fogo. Ele não podia acreditar que Kyle de Goale pensava em casar-se com outra. Ele jamais perdoaria Gail se aquilo acontecesse. Precisava dar um jeito daquele rapaz franzino conquistar sua filha. Se não fosse por bem, teria que ser por mal.
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[ *  *  * ]
CENA 11

“Você precisa comer alguma coisa, Gail.” Valerie remexia a cozinha em busca das iguarias que comprara para a mulher que se considerava sua amiga. “Desse jeito vai ficar doente de novo... Deus me livre!”
Gail estava sentada na sala, olhando para o lustre. Uma luz vinda de algum lugar fazia com que os cristais pendurados no teto brilhassem, causando um lindo efeito. Ela estava aérea, desconectada do mundo, pensando nas recentes memórias que adquirira.
Valerie desistiu de cozinhar e apareceu na sala, desanimada. Gail estava em casa desde a manhã e só ficara ali, sentada, sem fazer nada. A luz do sol já estava findando no horizonte e nada do que Valerie fizesse conseguia causar alguma reação na mulher. Não que ela quisesse ver Gail feliz, mas... estando longe de Urs, não precisaria estar tão mal. Sentiu-se frustrada. Teve vontade de agarrar Gail pelos braços e sacudi-la, mas teve medo que talvez alguma coisa se colocasse no lugar novamente. Porque Valerie tinha certeza que os parafusos de Gail estavam fora do lugar.
“Gail, vamos...” Valerie reclamou, com a irritação que lhe era peculiar. “Você pode estar com amnésia, mas ainda é a mesma. Vamos, conte já o que te incomoda.”
“Não sei se devo... acho que é segredo.”
“Desde quando você tem segredos para mim?” A mulher mentiu.
“Sei lá.”
Gail hesitou. Mas ela poderia contar a Valerie, era a única amiga que conhecia. Era uma das poucas pessoas que conhecia, e se dizia sua melhor amiga. E tinha se disposto a ficar com ela até melhorar. Gail tinha que remodelar sua vida, pois pensava ser uma pessoa desprezível. Aquela história de ter um caso, a história de tentativa de suicídio, era muita coisa ao mesmo tempo. Era uma sensação muito esquisita, não saber quem ela era e ao mesmo tempo achar ser algo que não gostaria de ser.


And I don't want the world to see me
'Cause I don't think that they'd understand
When everything's made to be broken
I just want you to know who I am



“Eu sei que você está escondendo alguma coisa.” Valerie insistiu.
“E você sabe o que é? Quero dizer... eu te contei alguma coisa sobre... David?”
Valerie não teve uma reação muito diferente do que se podia esperar. Gail somente tinha olhos para Urs, por que falaria de David? Não falaria, então Valerie entendeu que ele havia mesmo conseguido mexer com os hormônios dela.
“O que tem David Miller???”
“Não sei. Ele me contou que estávamos tendo um caso.”
“Um caso????” Valerie fingiu parecer surpresa. “Mas você não ia se casar com Kyle?”
“Eu ia, pelo que me disseram. Mas... estou muito confusa, nada vêm à minha cabeça quando tento me lembrar desse tal Kyle, e também não consigo me lembrar de ter amado David... apesar de...”
“Apesar de???”
“Bem, ele é muito lindo. Tem me deixado nervosa toda vez que aparece. Não acho que vou me interessar por esse Kyle.”
“Mas seu pai vai querer que se casem.” Valerie testou Gail ainda mais.
“Acho que ele não pode mandar em mim. Se eu não quero casar... não estou pronta, me sinto muito frágil.”


And you can't fight the tears that ain't coming
Or the moment of truth in your lies
When everything feels like the movies
And you bleed just to know you're alive


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CENA 12

Kyle de Goale estava na piscina quando seu pai apareceu para lhe informar que ele iria para a Irlanda. Como de costume, Pierre de Goale sempre decidia as coisas pelo filho.
“Não tenho interesse em ir atrás de Gail, papai. Eu não a amo e nunca amei.”
“Desde quando amor é razão para casamento, Kyle? Não aprendeu nada com seu pai?”
Kyle levantou-se e vestiu um roupão.
“Vou à Romênia encontrá-la, mas será para dizer que não vai haver casamento. Estou apaixonado, e não trocarei Mary Anne por nada.”
O rapaz deixou o pai em pé, ardendo sob o sol escaldante do verão mais quente que o Texas já vira. Ele estava cansado de ser sempre um boneco, jogado de um lado para o outro, nas mãos do pai. Estava na hora de assumir. De se assumir.
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[ *  *  * ]
CENA 13

O lustroso calibre 38 brilhava dentro do coldre de Albert Donovan. Ele estava no aeroporto com Pierre, aguardando a chegada de Kyle, para embarcarem rumo à Romênia. A arma seria necessária, e Donovan levou dias tentando conseguir uma autorização para portá-la dentro do avião. Nada que muitos dólares não pudessem comprar. Como sempre, o dinheiro mandava. Ele abria todas as portas, e também as fechava.
O jovem herdeiro do império de Goale chegou em cima da hora de fazer o check-in. Trazia consigo a bela Mary Anne, filha de mãe suíça e pai espanhol. A beleza exótica da mulher deixaria qualquer homem perdido. Mas foi sua presença que quase enlouqueceu Albert e Pierre.
“O que ela está fazendo aqui?” Pierre quis saber.
“Ela vai comigo. Como disse, vou dizer a Gail que não haverá casamento. E vou apresentá-la a minha noiva.”
“Nunca!” Pierre de Goale irritou-se. “Você vai casar-se com Gail nem que seja obrigado. Eu... eu te deserdo!”
Kyle de Goale de uma gargalhada.
“Pode deserdar. Mary Anne não está casando comigo por interesse. E eu... sempre detestei seu dinheiro. Talvez na sua época jurássica se obrigasse os filhos a casarem. Mas hoje em dia as coisas são diferentes. Tenho 28 anos, papai. Faço o que quero da minha vida.”
Albert Donovan colocou as mãos no rosto, totalmente desanimado. Seu plano perfeito estava se tornando poeira mais uma vez. Primeiro foi quando Gail sumiu. Agora, seu pretenso noivo desistia de casar-se. Tudo por água abaixo. Mas se Kyle realmente não quisesse mais casar-se com Gail, ela pagaria o preço. Pagaria por ter fugido e estragado tudo. Ele a traria de volta para o Texas e nunca mais a deixaria ver o músico.
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CENA 14

A casa dos Bühler andava uma desordem, desde a morte aparente de Gail. Urs parecia sempre um zumbi a rondar pela noite, enquanto seus filhos eram praticamente criados pela mãe. Valerie não queria saber das crianças, e o Westlife estava sem fazer shows desde a última turnê com o quinto CD do grupo.. Carlos andava também bastante familiar, com a esposa, Nicole e a segunda herdeira que viria a nascer. Sébastien continuava com seu egoísmo peculiar, pensando somente em sua carreira e mais nada. Ninguém apoiava Urs, ninguém estava lá para ampará-lo. E ele não sabia sequer onde estava a esposa.
Cansado da solidão, decidiu que o lugar de Valerie era consigo. Não suportaria mais as viagens sem razão da mulher, e resolveu ligar para ela. Fazia semanas que Valerie estava perdida pela Europa com Jodi, a namorada de David, que também andava desaparecido. Mas o celular da mulher não atendeu, diversas vezes.
“Essa porcaria nunca funciona.” Urs esbravejou, jogando tudo que havia nas gavetas do escritório no chão. Ele queria o telefone de Jodi. Daquela vez, foi atendido.
“Alô... Jodi? É Urs, quero falar com Valerie.”
“Valerie? Ela não está aqui.”
“E como falo com ela?”
“Urs... se você que é marido dela não sabe, como eu vou saber?”
“Mas vocês não estão viajando, oras? Que coisa é essa, duas amigas em viagem que não se encontram?”
O telefone ficou mudo por alguns instantes. Jodi McConney não sabia o que dizer. Respirou fundo e inventou qualquer coisa.
“Estou brincando, Bühler! Que falta de senso de humor. Quando Valerie chegar, peço para ela te ligar. Estou no quarto do hotel, com dor de cabeça.”
“Está bem. Mas quero que me ligue hoje.”
O homem desligou o telefone, visivelmente irritado. Estava vivendo um inferno particular desde que perdera seu grande amor. Perdeu também o rumo. Desconcentrou-se. Desconsertou-se. Ele não era mais o mesmo, sabia disso. E não imaginava como voltaria à normalidade.
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[ *  *  * ]
CENA 15

Valerie afogava-se em Champagne francesa, na melhor suíte do hotel mais caro da Romênia, enquanto seu celular tocava sem parar. Sua felicidade era inevitável, mesmo estando separada de Urs por alguns dias. Ela sabia que valeria a pena; livrar-se de Gail para sempre. A droga que haviam administrado era poderosa demais, Gail jamais recuperaria a memória. E, se um dia se lembrasse de algo, seria tarde demais.

O aparelho telefônico tocou tanto que fez com que a mulher fosse descobrir quem a importunava naquele momento. Reconheceu o telefone da amiga Jodi, e ficou imaginando o que ela poderia querer. Foi quando se lembrou que saíra tão repentinamente de Paris que não avisara a Jodi sobre o álibi. Discou o último número da memória do aparelho com dedos descontrolados.

“Valerie! Por que não atende esse telefone?” Jodi esbravejou.
“O que foi?”
“Seu marido me ligou, fazendo interrogações. O que está havendo que você esqueceu de me contar?”
“Eu estou na Romênia... a mulher acordou, de uma hora para outra.”
“Poderia ter me contado! Quase fiz papel de idiota, e ele quase descobriu tudo!”
“Ele desconfiou?” Valerie desesperou-se ao pensar na possibilidade de Urs saber de suas armações.
“Acho que não... eu consegui consertar. E David? Ele está com você?”
“Sim... achei que soubesse.”
“Ele está aí por causa dela, não é?” Jodi deu um soco sobre a almofada do sofá em que estava sentada. Ela passou a detestar Gail tanto quanto Valerie, assim que descobriu dos sentimentos do namorado em relação à mulher.
“Está, Jodi. Ele quer ficar com ela, você sabe disso. Mas ele nunca vai deixar você, David não é como Urs.”
“Estou me lixando para isso. Quero David só para mim, não vou dividi-lo com mulher nenhuma. Você me garantiu que ela se casaria...”
“E ela vai se casar.” Valerie falava enquanto retocava o batom em frente ao espelho. “O tal Donovan anda por aqui como um cão atrás da caça, ele vai levá-la para o Texas e obrigá-la a se casar com o filho de um amigo. Ela jamais atrapalhará nossas vidas novamente.”

Jodi respirou mais aliviada. Saber que David era um mulherengo ela sabia. Mas não aceitava que ele se apaixonasse por outra mulher, e ela sempre soube que ele se apaixonara por Gail. Soube que tinham um caso no mesmo instante em que começou. David nunca confessou a traição, desconversava sempre que podia. Ele não queria expor Gail, e aquilo irritava Jodi ainda mais. A idéia de seu namorado proteger outra mulher era insuportável.

“Ok. Então, cuide-se. Não vou para o buraco com vocês, já avisei isso.”
A namorada oficial de David desligou o telefone. Suas mãos ainda tremiam, mas ela preferia acreditar que Valerie daria um jeito nas coisas. Nunca imaginou que a sonsa da amiga conseguiria levar a cabo um plano como aquele, audacioso. Mas tudo parecia correr como planejado, Jodi só não via vantagens nenhuma na idéia de Valerie. Urs continuava apaixonado por Gail, continuava a desejá-la, tinha dois filhos com ela e jurava amor eterno. Ela não saberia ficar com um homem daqueles, definitivamente.
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