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| Beleza; Um texto para um concurso... Leiam! | |
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| Tweet Topic Started: May 6 2007, 02:29 AM (553 Views) | |
| Yangsmoth | May 6 2007, 02:29 AM Post #1 |
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Dactilógrafo Profissional
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Existe beleza em tudo. Acredito piamente nesta afirmação, da minha própria autoria. Vocês, leitores, encontram beleza no nascer do sol que pinta o horizonte de ouro, encontram beleza na lua de prata, mãe de uma míriade de mitos e poemas, encontram também beleza nas ondulações do mar alto. Aposto que muitos de vocês já viajaram para lugares distantes em busca de beleza, suponho também que alguns de vocês, se olharem para a foto na mesa de cabeçeira, ou até para quem dorme ao vosso lado, encontram outro exemplar de beleza. O belo, no entanto, é um valor caprichoso. E sendo eu um adepto da aterradora Teoria do Caos, e também das ciências concretas, acredito que não somos nada mais que um quadro, um quadro pintado pelo tempo, pintado pelos amigos, familiares e conhecidos, pintado pelas próprias paredes, pintado por simples pensamentos, pintado por outras pinturas. Ou seja, o belo é relativo e a sua apreciação é exclusiva a cada um de nós. Para os mais leigos ou desatentos, pretendo também com a metáfora anterior explicar que os humanos são influenciáveis por virtualmente tudo. Cada pequena coisa, por insignificante que pareça, cada singular produto do Caos, é um agente na nossa formação psicológica. A minha pintura, como irão constatar, é estatisticamente rara. Sou John Smith, um assassino a soldo. E aqui fica a lista e relato dos meus trabalhos mais belos. 19 de Novembro de 1988 Casa 34, Wisteria Walk, Saint Monica, California Vítima: Chris Parker Relembro, com um misto de carinho de melâncolia, o meu primeiro trabalho. Tinha dezoito anos, um autêntico míudo. Conservo ainda vestigios dos músculos temperados, e grande parte dos densos fios de mogno que me brotavam do crânio. Talvez os olhos cinzentos tenham perdido muito do brilho, assemelhando-se agora a dois blocos de granito. Mas estou a divagar. Chris Parker era um rapaz da minha turma, de estatura comparável à minha e largura a condizer. Não éramos amigos, longe disso. A nossa rivalidade era sobejamente conhecida, iniciada e orgulhosamente expressa nos jogos de futebol americano. Chegámos a lutar algumas vezes, mas nossos amigos rapidamente acorriam para nos separar. De certa forma a nossa competição terminava sempre em empate. Se ele me ganhasse uma briga, eu sovava-o na semana seguinte. Se a minha equipa ganhasse um jogo, a dele derrotava-nos no próximo. Deduzo que o acto incauto que conduziu à sua morte foi fruto do nosso primitivo desejo de competição, ele tentou a todo o custo vencer-me. Passou-se tudo da seguinte forma: Tinha eu acordado a meio da noite para beber um copo de água quando vislumbrei pela janela de cortinas abertas três vultos a saltarem a minha vedação. Com o coração aos pulos, tomei os estranhos como ladrões. Até que ouvi o ganir do Speed, o meu cão lavrador. Peguei no meu taco de baseball e galguei as escadas. Os meus pais estavam a passar a noite fora, eu estava completamente sozinho. Saí para o exterior, ainda de roupa interior, a tempo de discernir a inconfundível voz do Chris, e os risos dos dois cúmplices. Contornei a casa e corri para eles. Surpreso, Chris berrou qualquer coisa que o bombear de sangue nos meus ouvidos não me permitiu compreender, e fugiu com os companheiros. Não os persegui, abeirei-me da figura de Speed, e sobre ela me deixei cair. O crânio do cão estava aberto, os dentes partidos e o corpo mole. Chorei. Chorei como nunca havia chorado. Enterrei o cão no quintal e no dia seguinte não contei nada aos meus ausentes pais, que de qualquer maneira nem repararam na ausência daquele que de certa forma era membro da familia. Na próxima noite, fiz algo que mudou a minha vida. Sorrateiramente, saltei a vedação de Chris. Tencionava pagar da mesma moeda, e matar os gatos dele. No entanto ele estava à minha espera, escondido nos arbustos. Saltara na minha direcção, gritando. Caímos os dois ao chão, e depois de uma breve luta, consegui ficar em cima. — Larga-me! Larga-me já! — Berrara ele, ódio patente no olhar. Ódio que empaledecia em comparação com o meu. Calei-o, tinha que o calar. As luzes das casas vizinhas acendiam-se, e a última coisa que eu queria era ser preso e acusado de assalto ou agressão. O meu taco desceu, pesado e duro, partiu o nariz de Chris. Ele gemeu, e começou a chorar. O taco voltou a subir. E logo desceu, esmagando-lhe os lábios e partindo-lhe os dentes. Repeti o gesto num pranto soluçante, até a face de Chris não ser mais nada que um bolo de carne desfeita. E parei pouco depois, atordoado. Fora a minha primeira morte, e o choque inicial deu lugar a uma invigorante sensação de poder. Eu destruira uma dávida de Deus. O orgasmo de sensações inebriou-me. Naquele momento tive a certeza... Nascera para matar. 1998 Rua de Santo António, Albergaria-a-velha, Aveiro, Portugal. Vítima: Maria de Lurdes Santos Não relatarei os métodos utilizados para dar os meus serviços a conhecer. A beleza dos assuntos burocráticos não está ao vosso alcance. Apenas precisam de saber que este fora o meu primeiro trabalho no estrangeiro. Maria de Lurdes Santos era uma mulher idosa, e a morte dela fora-me pedida pelo próprio filho. Aparentemente, uma zanga familiar e uma discussão acesa iriam culminar na exclusão do meu cliente do testamento. Observei a senhora durante dias, fixei os lugares que ela frequentava e decorei a sua rotina. Segui-a para o café Bristol, um lugar obscuro mas acolhedor. Ela sentara-se e pedira um café sem açúcar. Eu, envergando óculos escuros, mala de vendedor e fato e gravata, passei à beira dela e dei-lhe um encontrão prepositado. A chávena de café que ela levara aos lábios estremeceu, e derramou o líquido quente sobre o seu colo. Depois de um guincho indignado, ela começou a barafustar comigo. Ignorando por completo o palavreado naquela língua estranha, e balbuciando um pedido desculpas, deitei-lhe discretamente um comprimido branco na bebida. Felizmente, ela discutiu tanto tempo que o comprimido teve tempo suficiente para se dissolver completamente. Depois de pagar a conta, sentei-me cá fora numa cadeira de plástico. E assisti serenamente à morte da mulher. Os donos do café suspiraram, tomando o engasgo que se seguiu como normal. Mas acorreram quando a viram rouquejar e agarrar a garganta enrugada com uma mão. Começou a espumar da boca, e caiu de cabeça no chão, gemendo e contorcendo-se. Sorri, levantei-me, e parti. E o que houve de belo nesta morte? Perguntam vocês. Pois bem, eu explico. Maria de Lurdes Santos era ama doméstica, e tinha em seu cuidado duas crianças pequenas. Ao sair para beber um café, esperando tudo menos morrer envenenada, deixara o forno a gás ligado. Duas horas depois da morte da respeitável senhora, as duas crianças acenderam um fósforo e abriram o forno. É pena que este tipo de beleza não possa ser apreciado por todos. 25 de Dezembro de 2005 Casa 33, Wisteria Walk, Saint Monica, California Vítima: William Smith O meu pai era um homem forte, cujos cabelos brancos adivinhavam uma reforma confortável. A casa não mudara muito depois de eu me mudar. Conservara toda a sua beleza sóbria. O meu cliente desconhecia o facto do seu alvo ser meu pai, ser pai do assassino. A ironia da situação pintara-me um sorriso nos lábios durante toda a visita, sorriso esse que o meu pai tomara ingenuamente como felicidade por o ver. Suportei estoicamente o seu discurso abatido sobre a morte da esposa, minha mãe. Ao entrarmos na cozinha, ele pausou as lamúrias e apontou orgulhosamente para a restauração das paredes. A certa altura, a boca dele deteve-se, e os olhos giraram para mim, iniciando de seguida uma tentativa fútil de fitar a chave de fendas que eu lhe havia espetado no pescoço gordo. Caiu ao chão, tentando a todo o custo tapar o buraco pelo qual o seu néctar vital jorrava, e dando uso à visão certamente desfocada para me fitar. Estendeu um trémulo dedo acusador para mim. E morreu. Curvei-me sobre o corpo dele, e beijei-lhe o rosto. Acreditem ou não, doeu-me matá-lo. Doeu-me tanto como agradou. E é aí que reside a beleza desta morte. Tocou-me. Fora como um desafio a Deus, matar o ser que me dera vida. 2 de Abril de 2007 Apartamento 247, St Alms Street, Los Angeles, Califórnia Vítima: John Smith Subo, arfando e suando com o esforço, as escadas de ferro que vão dar ao terraço. Já lá em cima, debruço-me sobre a amurada para olhar a cidade. Luto para absorver a sua beleza. Os rasgos de luz que dançam no asfalto, os jornais sujos e rasgados arrastados pelo vento, os mendigos encobertos por mantas puídas que estendem as mãos aos frios trauseuntes. Cerro os olhos e inspiro fundo. Tanta beleza... E um soluço escapa-se da minha garganta. Os meus cinco sentidos não chegam para apreciar toda aquela beleza. Ouvir a quinta sinfonia de Beethoven, cheirar o incenso que acendo à noite, provar o caro champanhe de Bordéus que aguarda no meu armário, sentir a pele quente da minha ingénua mulher. E ver o jorrar do inocente sangue alheio. Por muito que tente, nada disso fará parte de mim. Consigo apenas apreciar à distância, como um encarcerado a oferecer o rosto ao Sol através das grades. Aquela conclusão desesperante leva-me a subir para a amurada. Abro os braços, e o vento bafeja-me o cabelo, acariciando-me a pele, provocador. Uma batida de coração. E um passo no nada. Por momentos, sinto como se os meus pés estivessem apoiados em algo invisível. Como quando a gravidade dá ao gato Tom tempo para se aperceber do seu erro. Mas não é um erro. Outra batida de coração. Sinto-me livre. Caio. Caio a toda a velocidade para uma morte certa. Uma morte bela... O meu corpo mole desfaz-se na calçada do passeio, une-se com a pedra lisa. Por fim, algo meu. |
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"Death looks down at the corpse of the Lover, then turns to the Woman" - Your husband died, do you wish to carry on your life with painful memories? Or do you want to forget him? "The woman sobs" - I'll live with his memory, even if it's painful. "The woman goes, the Warrior turns to Death". - I'm curious, Death. You gave this choice to many people, right? "Yes..." "How many of these lovers chose to forget?" "None, not one." | |
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