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Lágrimas do Céu; Uma lamechiche que escrevi...
Topic Started: Aug 25 2006, 04:37 PM (681 Views)
Yangsmoth
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Dactilógrafo Profissional
[ *  *  *  *  *  *  *  * ]
Atenção, aviso já que isto é realmente lamechas. Eu tava triste e a ouvir música celta quando escrevi isto xD. Mas pronto, aqui vai, muha.
São duas páginas Word.

______________________________________

O vento uivou, roubando sem remorsos as pétalas cor-de-rosa do ramo de uma árvore, liderando-as para longe da mãe, soltando-as na imensidão profunda das planícies que se estendiam até onde a vis alcançava, uma gloriosa extensão de erva branca.
As pétalas dispersaram-se, cada uma seguindo o seu caminho. Uma águia anunciou a sua chegada com um estridente pio, e sem perder tempo, tentou debicar uma das pétalas. Essa pétala ondeou para fora de alcance, e foi desviada por outro sopro de vento em direcção ao solo.
Roçou a vegetação nívea e voltou a subir, alcançando a eterna névoa que cobria o dia.

A gravidade ajoelhou Ezequiel contra a rocha dura, inclemente, sem dar margem de resistência. As belas faces do ser encontravam-se desfiguradas por lágrimas de mágoa, a boca entreaberta e os olhos luzentes. Os longos cabelos brancos eram fustigados pela tempestade.
Parecia que a própria natureza lutava. Os trovões digladiavam-se com o vento, a chuva combatia o sol, e as próprias nuvens enfrentavam o globo de fogo que era o Sol, numa desesperada tentativa de barrar passagem à vital luz e apenas conseguindo até certo ponto, pois insistentes raios dourados atravessavam as adversidades, banhando a encosta da montanha em todo o seu esplendor maculado.
O alto mas pequeno cume da montanha onde Ezequiel jazia posicionava-se como coração da batalha, tendo como espectadores as colossais forças que moviam o mundo.
— Ezequiel… — Foi o débil murmúrio que se forçou para fora dos doces lábios vermelhos de Aeris. O receptor da palavra segurou-lhe a mão.
— Estou aqui. — Confirmou, a voz divina suavizada por sentimentos. O próprio timbre transbordava bondade e brandura.
Uma língua de fogo desfeou a cortina de nuvens, marcando o seu trajecto em chamas nas planícies. Como protesto, a terra tremeu, vibrando os alicerces das montanhas. Ezequel pressionou o corpo magro de Aeris contra o seu peito e curvou o queixo sobre a sua cabeça, pretendendo resguardá-la do perigo do conflito.
— Ezequiel… Eles lutam por nós. — Lamentou-se Aeris, cerrando o par de esferas cor de mel com força.
— Há causas pelas quais vale a pena lutar, meu amor. — Confortou o anjo, ao mesmo tempo que afagava os finos cabelos castanhos da sua amante.
Um colossal trovão surgiu, resplandecendo os céus.
— Sinto-me tão egoísta… — Confessou Aeris, uma mera humana nos braços de um ser divino.
— Enfrentaria as marés por um sorriso teu, Aeris. E tu sabes, melhor do que ninguém. — Declarou Ezequiel, a voz resoluta mesmo no seu estado cândido.
E os olhares fixaram-se, espelhando o que palavras já não conseguiam transmitir.

Dezenas de milhares de homens presenciavam o embate das forças naturais, fitando o topo da montanha com alarmante expectativa. Os olhos de pouco ou nada lhes serviam. A escuridão era demasiada. Mas todos eles sentiam uma chama no peito, que aumentava de intensidade. Muitos repousavam, silenciosos e conformados no abrigo da morte. Alguns haviam sido atirados aos ares por tornados, apenas para caírem e serem salvos pela intervenção da Mãe Terra, que abria macios mantos de relva. Outros não tinham tanta sorte, e eram consumidos por chicotes de fogo vindos do firmamento.
Mas a maior causa de morte fora exterminada. Tinha a forma de milhares de inimigos fortes, que envergavam pesadas armaduras brancas, com o símbolo de um sol raiado nos peitos ou escudos. Paladinos sagrados, fanáticos religiosos, padres devotos. Era basicamente uma multidão de combatentes, prontos a enfrentar os seus congéneres, cegos pela fé.
Todos esses irreflectidos prostravam-se, defuntos, sobre o próprio sangue que pintara a erva, ignorados pelos seus carrascos.
Esses mesmos continuavam a observar o colosso de pedra natural, a montanha. Armas rústicas, exóticas, afiadas e enferrujadas, pendiam ao lado do corpo. Mãos apoiavam-se nos escudos e os elmos debaixo do braço.
— General! Eu sinto-o! Acha que eles vão… — Falou um jovem soldado, a quem faltava dois dedos, para o homem alto e de barba por fazer em cima do cavalo ao seu lado.
— Acho. — Cortou o oficial, antecipando a pergunta. Os dois orbes cinzentos incidiam no mesmo alvo do exército. A mesma emoção, talvez toldada pela idade, patente.
A sua boca abriu-se de espanto para acompanhar a gutural exclamação de espanto que irrompera nas abundantes fileiras.

Uma pétala cor-de-rosa roçou a face de Aeris durante um segundo, até partir de novo. Os lábios do anjo e da amante uniram-se, e ocorreu o beijo que mudaria o mundo terreno e divino.
Gesto tão simples foi recebido com uma explosão de eventos. O primeiro fora o uníssono brado triunfante do exército de homens, que se prolongou pela duração do beijo, fortalecido pela labareda emotiva na alma dos soldados.
O próximo acontecimento fora tão evidente que até os animais se aperceberam. O céu escurecera com um rugido e avermelhara-se, podendo ser comparado a uma gota de sangue diluindo-se numa lágrima.
O terceiro facto viera em forma de milhares de anjos indignados descendo dos céus, armados e sedentos de sangue humano.
— Ezequiel, eles vão matar-nos! — Lacrimejou Aeris o anjo renegado.
— Não, Aeris. Seremos livres, eu juro. — Prometera ele, encarando os invasores que desciam de encontro aos homens, sendo recebidos por flechas e regados pelas mesmas.
— Eu não vou conseguir fugir… Não consigo voar… Vai, meu anjo. Parte. — Suplicou ela.
Ezequiel acenou negativamente e ergueu-se, levantando-a pelas mãos. Abriu as asas, soltando penas brancas que esvoaçaram para longe. — Liberta as asas que tens mas não vês, pulsar dos meus sonhos. Partiremos juntos, como está destinado.
Aeris pesou as palavras dele com o característico ar doce. Lágrimas lamberam o seu caminho até ao queixo, onde se libertaram. Das suas omoplatas surgiu um par de asas, o que não surpreendeu nenhum dos amantes.
De mão dada, levantaram voo, partindo para o horizonte.

Os anjos haviam-se abatido sobre os humanos com fúria vingativa, mas estes últimos, inspirados, ripostaram com igual ferocidade. Homens eram esquartejados por lâminas celestes, penas brancas choravam dos divinos feridos, flechas eram entregadas a alvos e lanças alojavam-se em corações. A dança sangrenta sincronizava-se com uma cacofonia de vozes e impactos.
Algures no seio da disputa, Aazaad combatia pelo que acreditava. Os seus caracóis negros dançavam ao ritmo dos golpes da sua espada longa e enferrujada. Reflectidos nos olhos castanho-esverdeados estava uma coragem e força de vontade que o ajudavam a prevalecer.
Verteu o primeiro sangue ao cravar a arma no peito de um surpreso algoz, libertou-se com a ajuda de um pontapé no corpo e atacou outro inimigo. Este, um ser tão belo como os restantes, aparou o golpe com facilidade e ripostou com outro, que foi desviado.
Aazaad recuou um passo, aço celeste embateu contra a espada que empunhava, cuspindo faíscas e rangendo os dentes do rapaz. Quase nem teve tempo de se defender da próxima investida, que visou o seu abdómen e foi detida por um golpe de ancas instintivo. Levando a lâmina acima, afastou o atacante, e aproveitando a temporária situação favorável quando o anjo recuou, avançou um passo e estucou transversalmente.
O anjo sentiu frio nas suas entranhas, e o seu último pensamento antes de o objecto espetado em si lhe terminar a vida, foi de surpresa. Como conseguia um jovem humano derrotar um enviado dos céus? Pois de facto, antes de a visão escurecer, o anjo moribundo mirara o redor e vira os seus companheiros alados a cair mortos.
— Não! — Revoltou-se outro anjo, vindo do nada — Eu sou um filho de Deus, eu sou divino, eu sou perfeito! MORRE TRAIDOR!
O antebraço do irado deitou Aazaad ao chão, e uma partizana espetou-se no ventre do caído. Fora o último momento do anjo, pois uma solitária flecha alojou-se no seu crânio, tomando-lhe a vida e suposta imortalidade.
Aazaad expeliu o ar para fora dos pulmões ao embater com as costas. Virado para o céu, assistiu ao voo de mais anjos. Estes não podiam ser as criaturas divinas que conhecia de histórias.
A sua visão escureceu, o que o jovem tomou como um sinal de morte. Enfiou a mão no bolso e retirou um lenço sujo, que encostou à face. Memórias abateram-se sobre ele, e um murmúrio proclamou: — Deixa-me morder-te docemente… — Grunhiu de dor. — E banhar-me… na tua inocência. Cândida e doce inocência… que preenche os meus sonhos.
Adormeceu, confortado pela citação.
"Death looks down at the corpse of the Lover, then turns to the Woman" - Your husband died, do you wish to carry on your life with painful memories? Or do you want to forget him?
"The woman sobs" - I'll live with his memory, even if it's painful.
"The woman goes, the Warrior turns to Death". - I'm curious, Death. You gave this choice to many people, right?
"Yes..."
"How many of these lovers chose to forget?"
"None, not one."
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